Baptista Jerónimo

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Bragança e os eventos

Está a decorrer o evento “Tradições de Inverno — Butelo, Casulas & Caretos”, e salta à vista o investimento público, mais propriamente da Câmara Municipal de Bragança (CMB), na dinamização da cidade. A promoção é visível, a comunicação está cuidada e a intenção é clara: valorizar a identidade cultural, atrair visitantes e estimular a economia local.

No entanto, a realidade no terreno levanta uma questão que merece uma reflexão serena e construtiva: por que é que estes eventos nem sempre se traduzem em oportunidades reais para a restauração? Num cenário em que apenas um café permanece aberto no centro histórico e, alargando o raio, encontramos mais um ou dois espaços, o visitante depara-se com dificuldades básicas: tomar um café, o pequeno-almoço, almoçar com tranquilidade ou degustar o inigualável butelo com casulas, precisamente o prato em destaque no evento. Este desfasamento entre expectativa criada e oferta disponível não deve ser visto como um problema isolado, mas como um sinal de que diferentes peças do ecossistema local ainda não estão totalmente alinhadas. Realidade que, aliás, se verifica haja ou não iniciativas especiais.

Importa sublinhar algo essencial: a economia é livre; os empresários são livres de decidir quando abrir ou fechar portas. A mesma liberdade que a autarquia tem para definir a sua estratégia cultural e turística. Porém, liberdade não exclui diálogo, planeamento e visão coletiva. Pelo contrário, é precisamente através da cooperação voluntária que as cidades conseguem crescer de forma mais equilibrada e sustentada.

Talvez o caminho passe por pequenas mudanças estratégicas. Por um lado, a Câmara Municipal poderia ponderar a diversificação dos horários e localizações dos eventos, distribuindo-os também ao longo da semana ou por diferentes zonas, criando fluxos e oportunidades. Por outro, a ACISB poderia promover escalas voluntárias entre restaurantes e cafés, garantindo uma oferta mínima durante iniciativas e ao fim de semana, contribuindo assim para recebermos melhor quem nos visita e serem bem servidos, ao mesmo tempo que alargava as oportunidades a outros investidores.

Há ainda perguntas legítimas que merecem análise sem preconceitos: estará a restauração a perder oportunidades ao manter portas fechadas quando a expectativa de negócio é maior? Ou o rendimento auferido durante a semana permite abdicar do potencial lucro do fim de semana? Ou será que alguns eventos, apesar da boa intenção, não estão a gerar o impacto esperado em termos de visitantes? A Câmara já utilizou as ferramentas disponíveis que permitem avaliar o retorno do orçamento investido?

A resposta provavelmente não é única. Pode envolver hábitos enraizados, custos operacionais elevados, escassez de mão de obra ou até uma perceção diferente do retorno económico.

Mais do que apontar culpados, importa construir pontes. Os eventos culturais só cumprem plenamente o seu papel quando proporcionam uma experiência completa a quem visita, conseguindo uma simbiose entre a animação, gastronomia, hospitalidade e o alavancar da economia. E essa experiência depende de todos: autarquia, empresários, associações e comunidade.

Bragança tem tradição, identidade e potencial. O desafio passa por transformar o investimento em resultados consistentes, promovendo um diálogo aberto entre quem organiza e quem empreende. Porque uma cidade viva não se mede apenas pelos eventos que promove, mas pela capacidade de transformar esses momentos em oportunidades partilhadas.

Talvez a questão não seja saber quem ganha mais ou perde mais, mas sim como alinhar expectativas para que todos ganhem um pouco mais: visitantes, empresários e a própria cidade.

Baptista Jerónimo, 16/02/26


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