Manuel Igreja

Manuel Igreja

O Douro move-se

Há pouco mais de cem anos, ainda há pouco, apesar de parecer uma eternidade por causa de tantas terem sido as mudanças nos modos de viver, dada a enorme crise que se fazia sentir na nossa região, os Paladinos do Douro, como ficaram conhecidos, uniram-se, agiram e organizaram-se.

Apesar de ser um tempo em que por exemplo para se ir da Régua a Alijó, tamanha era a distância em tempo que era preciso levar merenda para a jornada, algo obrigatoriamente necessário por falta de meios de comunicação mais imediata e eficiente que não a pessoalmente direta, palmilharam estradas e caminhos para saberem de si, do que pensava cada qual e para concluírem os que fazer tendo em vista o objetivo comum.

Nada mais nada menos que o se encontrarem efetivas reivindicações a fazer, normas mais eficientes de organização a serem implementadas, e atitudes em nome de todos depois de ponderadas por cada um no que respeitava ao granjeio dos vinhedos e ao escoamento dos vinhos a serem pagos o melhor possível para que houvesse sustentabilidade que bastasse no atividade e não faltasse o pão nas mesas como estava a suceder.

Foi desta dinâmica numa época em que as dinâmicas eram muito mais condicionadas que atualmente neste tempo em que ir daqui ali é uma facilidade, e em que todos estamos à distância do ligar de um botão eletrónico, que nasceu, cresceu e se implantou a Casa do Douro enquanto forma de organização que causou admiração em todo o mundo.

Durante décadas as coisas correram num remanso com anos a serem iguais entre si e com sombra nas bananeiras. Uns iam vivendo tranquilamente, outros como era comum esmifravam e outros penavam entre todos os nascer do sol e o ascender das estrelas. Era a vida desenhada pelas circunstâncias que sendo tema para largos escreveres deixaremos neste ponto de levedura

Interessa-nos agora avançar no bardo feito linha de escrita até aos dias de agora em que pairam de novo negras nuvens no horizonte. O mundo mudou, mas as vontades são as mesmas. No mundo global a competitividade é enorme e feroz, os hábitos modificaram-se e as exigências aprimoram-se. Vender já não é o que era e granjear deixou de ser como sempre foi.

 Em toda a fileira do setor, quem cultiva obrigatoriamente urge-lhe a necessidade de obter retorno que baste pelo menos para pagar os gastos, tal é o ponto da situação, e quem vende exigentemente tem de obter lucros para apresentar aos donos das empresas estruturas para o alcance de estabilidade e de multiplicação dos capitais investidos.

No meio, mourejam com o suor em bica, os que não são empresas, mas são proprietários de pequenas parcelas de vinhas em que as videiras espalham as raízes pelo se coração e as uvas são vistas como filhas a quem se dedica toda a devoção acariciando-se com o olhar e dedicando-se-lhes todos os cuidados para que medrem lindas até à colheita.

A realidade de quase romance que foi e é o Douro vinhateiro, por abandono de quem lá longe manda e pode, e por desleixo e falta de organização de quem por cá padece para que continue o florir da paisagem encantadora, piorou de vindima para vindima grassando o desespero acerca da que se avizinha.

Talvez por isso, mas não só, começam agora a surgir e serem publicitadas ações de mobilização e medidas que depois de ponderadas, estudas e implementadas poderão ajudar no equilíbrio do setor em toda a sua fileira, imprescindivelmente de ponta a ponta e pelo meio.

Esgrimem-se argumentos como se devem esgrimir, pesam-se os prós e avaliam-se os contras. No entanto, não se deverá esquecer o caráter empresarial da atividade no se todo, mas também e antes de mais, não se pode em tempo algum esquecer o caráter social e histórico que a vitivinicultura duriense contém, mantém e deverá manter.

Os de há um século e os de antes, ergueram uma obra sem medida. Os de agora, nós, vossemecê e eu, não nos podemos esquecer sabendo que quem sabe a hora, faz acontecer.

O relógio não pode parar. As uvas estão quase a ficarem prontas para o lagar.



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