Manuel Igreja

Manuel Igreja

O Dia Inteiro e Limpo

Era abril. Quase maio. A primavera como lhe é próprio, fazia florira as giestas e mais tudo o que havia para abrir. As pétalas recebiam o sol e deslumbravam. As nuvens sabiam de si e que ia deixando de ser o seu tempo. O brilho ia rompendo o cinzento das mentes em corpos menos dormentes.


As madrugadas pareciam ser iguais. Seguidas e compridas, mas com dias por cumprir que esperavam para nascer. No entanto, nos dias vividos como se fosse sempre noite, porque o breu servia de capa, homens e mulheres pensavam e lutavam para romper a escuridão e para resgatar a decência.

Num alvorecer em abril, uma canção deu o sinal. Um poema rendilhado com acordes mandou que as armas mesmo caladas, se pusessem em marcha. A liberdade agrilhoada urgia ser resgatada. O dia nasceu, as pessoas saíram para a rua para festejar e para apoiar, e as barreiras caíram. O regime ofuscante e pardacento ruiu como um castelo assente em areia movediça.

Corroído, estatelou-se. Sobre e por entre os escombros nas esquinas das ruas, nas avenidas e nas vielas, espalhou-se a esperança e exigiu-se a moral e mais a justiça nos quotidianos que se impunham e se anunciavam nas asas de uma gaivota que voava no céu vendo um mar de esperança.

Nos canteiros colheram-se rosas e cravos para enfeitar os canos das espingardas manuseadas com mãos que naqueles instantes eram de veludo porque somente queriam dar tudo. As fardas eram da cor da liberdade. Cada botão em sua casa era um olho de felicidade incontida nas horas em que estava a ser vivida. Quase infinita, mas não eterna por ser como uma chama.

O calendário marcava o dia 25 do mês de abril do ano de 1974, ano da graça, nascido para acabar com as trovas que falam da desgraça. As canções deviam então falar de emoções incontidas nos corações e de conquistas a fazer. Foi o primeiro de todos os outros esperançosos ainda por nascer. O mundo passou a ser do tamanho dos sonhos, sem freios para o se pensar porque nos campos sobravam ventos anunciadores da liberdade. 

Sentiu-se pressa. Muita pressa. Alcançou-se num ápice muito do desejado e tido como justo. Novos hábitos, novos costumes, novos gostos, novos direitos e novos deveres numa igualdade mais sentida que alcançável. Fundearam-se os pilares da cidadania por ensinar e por se concretizar. Ela não é de ser dar, mas de se evoluir até se conseguir. Grosso modo, meio século depois da sementeira, ela pouco desponta dos campos ora áridos ora floridos nos quotidianos adiados.

Apesar de o direito ao querer, ao pensar e ao optar, vivem-se dias de descrédito e já quase sem memória. Democratizou-se, desenvolveu-se, fomos elevados aos lugares cimeiros no rol dos mais ricos e mais civilizados, temos escrito o direito ao Ensino e à Saúde para todos, mas começamos a sentir que nos falharam.

Demos como garantido tudo e mais alguma coisa, mas não nos ensinaram a cuidar, a produzir mais e melhor em menos tempo e a ver os assuntos que são de todos como sendo de cada um. Votamos preocupados mais com a parte do que com o todo, damos um voto a troco de um prato de lentilhas. As convicções mirram, os ideais nem nascem e os anseios estremecem abanados pelas fortes brisas da desilusão.
Meio século depois daquele dia inteiro e limpo, como apelidou a grande poeta que sabia das coisas da alma, tendemos a esquecer-nos que naquele tempo os dias de trabalho passaram a ser mais garantidos, absolutamente enquadrados em horários definidos e contratualizados e com relações de poder efetivas e garantidas, sem que os humores do clima sejam chamados ou considerados para a função. 

Em Trás-os-Montes e Alto Douro e mais na Beira, a Lavoura passou a ser menos penosa, mais justa e mais acarinhada. Passou a ser também uma questão de opção num mundo com mais janelas de oportunidades. Por sua vez, o Comércio respondendo à procura, espalhou-se e diversificou-se. O comprar e o vender fez nascer novas formas de vida. A modernidade passou a ser ponto, forma e norma.
Desde aquela madrugada anunciadora, já existiram milhares de alvoreces e de anoiteceres. Tantos que já permitem um extenso desfiar de memórias. Fui moço, eram os meus verdes anos. Mas deu para registar e agora para me lembrar das pessoas na rua a celebrar, para participar ainda sem saber porquê na festa que foi linda. 

Ainda me lembro da má vontade e da desconfiança de alguns que quiseram fixar os ponteiros dos relógios para que não avançassem nas voltas a dar para continuarem a ser donos do tempo. Mas também me lembro dos militares a marchar para fazerem acontecer na hora certa. Os que estavam na região de para cá do Marão avançaram e as pessoas vieram para os passeios das ruas aplaudir e incentivar aquilo que não mais podia ser adiado. 

A Revolução aconteceu e venceu. Os que nasceram antes dela, mudaram e evoluiriam. Aprenderam coisas novas. Os que não a viram, mas a vivem, usufruíram e usufruem porque usam. Não sabem o que significa ser pássaro em gaiola a pensar que o mundo acaba em cada grade ou logo a seguir ao mero que a vista alcança. 

Em 1974 o mês de abril acabou diferente. O de maio e os que se seguiram foram mais floridos na primavera que se constrói quando se permite e se cultiva a mudança permanente para que exista sempre esperança. 

No ano de 2024 compete-nos essa tarefa. Os nossos filhos, os filhos dos nossos filhos e os seus netos, exigem-nos que cuidemos da cidadania e lhes leguemos a liberdade como alicerces dos anos por lhes acontecer. Livres, inteiros e limpos dentro dos dias que lhe cabem e caberão em sorte como deles.


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