Manuel Igreja

Manuel Igreja

Crónica Breve da Desumanidade

O mafarrico anda à solta. Está a conseguir colocar mais de metade dos homens meio tresloucados. Coisas nunca vistas acontecem a toda a hora em qualquer parte neste mundo de loucos feito nau desgovernada pela insanidade na rota da autodestruição arredada de qualquer lampejo de inteligência.

Um homem de vinte e oito anos, um moço, antes necessária e supostamente equilibrado e escolhido depois de passar por apertadas malhas num dos mais exigentes países por causa do exercício da sua função, ensandecido, espetou com o avião que tripulava contra uma montanha levando com ele para a morte centena e meia de desinfelizes.

Admiramo-nos, benzemo-nos com a mão esquerda para espantar o demo, o chifrudo, tentamos compreender a atitude, mas não alcançamos entendimento suficiente. Não há luz mínima que indique semelhante acto, indizível tanto no mundo dos animais racionais como no dos irracionais.

Noutro ponto e noutras circunstâncias, fanáticos religiosos usurpadores e nada entendedores dos desígnios de Deus, tenha Ele que nome tiver, alucinados, futuram que podem emperrar o caminhar do tempo, e tendo para eles que na Idade Média é que era bom e se esteve mais perto da santidade, tentam estabelecer um domínio territorial perpetrando as mais cruéis e sanguinárias barbaridades.

Houve uma época em que tínhamos para nós que matar seres humanos como quem mata baratas era próprio de há mil anos ou mais, mas concluímos agora que afinal a humanidade não evoluiu assim tanto. Nas circunstâncias necessárias, somos seres bem piores que as hienas no exterminar por mero prazer desculpado por crenças divinas embrulhadas em prémios de muitas virgens ao virar de qualquer nuvem no azul celeste.

Por ganância, por ignorância e por estupidez política, os nossos líderes ocidentais abriram a caixa de Pandora do médio e próximo Oriente. Expulsaram ditadores antes convenientes mas de repente tornados indesejáveis, pregaram o fogo ao palheiro velho. As chamas lavram, destruem equilíbrios, encurralaram-nos. Veremos se temos saída airosa para tão enorme enrascada, mas vai ser difícil.

Quase diria que a humanidade andou para trás, mas não posso. Ela não saiu do sítio civilizacional desde que desceu das árvores. Mais parece. Desenvolveu-se tecnologicamente, inventou coisas do diabo e de espanto, mas pouco ou nada aprendeu com os horrores causados por si mesma na cata dos recursos dos outros.

Por estes dias, o planeta das redes sociais chocou-se. De novo, mas por meras horas. Foi uma fervura. A imagem de uma menina de três anos que na Síria levantou os braços em sinal de rendição perante a máquina fotográfica de um repórter cuidando que era uma arma, tornou-se viral e percorreu num ápice todos os cantos espalhando breve mas intensa emoção. Não sei se todos viram, mas no fundo do seu olhar, está algo que faz revolver as entranhas de quem no interior tenha mais do que tripas acomodadas à espera dos comeres ingeridos.

Caso me pedissem para exemplificar em concreto a falta do nosso tino e da nossa falta de evolução enquanto espécie, não hesitaria. Preto no branco, ali está a prova do nosso primarismo. Temos semelhantes para quem a vida mais não é do que uma série de mortes e um constantes rajar de metralhadoras por entre infernais explosões.

No entanto, lembrei-me agora: Pode muito bem dar-se o caso de a catraia ser a incorporação de um anjo que pretende dar-nos o alerta acerca do Belzebu e de mais o que ele nos leva a fazer. Não acredita? Sei lá! Já vi tanta coisa!


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