Baptista Jerónimo

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Bragança não pode viver do mesmo: Parte III – Os territórios mudam quando encontram uma ideia

Bragança não pode viver do mesmo

Parte III – Os territórios mudam quando encontram uma ideia

Nos dois artigos anteriores procurei demonstrar duas ideias fundamentais: A primeira é que o modelo de desenvolvimento seguido ao longo das últimas décadas revela sinais evidentes de esgotamento; a segunda é que Bragança continua a possuir recursos, conhecimento e condições para construir um futuro diferente.

Mas entre possuir potencial e transformá-lo em desenvolvimento existe uma diferença decisiva: a diferenciação.

Durante muitos anos, os territórios competiram essencialmente pela localização, pelas infraestruturas ou pelos incentivos ao investimento. Hoje, continuam a precisar de tudo isso, mas já não é suficiente. Num mundo cada vez mais competitivo, os territórios disputam também notoriedade, talento, investimento, conhecimento e capacidade para atrair pessoas. E, nessa competição, não vence necessariamente quem possui mais recursos, vence quem consegue afirmar uma identidade própria e diferenciadora.

É precisamente aqui que muitos territórios falham. Basta observar a maioria das estratégias de desenvolvimento local para perceber que utilizam quase sempre os mesmos argumentos. Fala-se de património, de natureza, de gastronomia, de qualidade de vida, de turismo, de inovação, de empreendedorismo, de sustentabilidade ou de localização estratégica.

Estes fatores são importantes, nenhum deles deve ser ignorado, mas o problema é outro. Quando todos apresentam os mesmos argumentos, deixam de constituir fatores de diferenciação.

Ter património já não distingue um território, a natureza também não, a gastronomia muito menos. Qualidade de vida, turismo ou boas acessibilidades são objetivos legítimos de qualquer concelho português. Uns conseguem melhores resultados que outros, mas quase todos seguem caminhos semelhantes.

Ora, um território dificilmente se afirma fazendo o mesmo que os restantes, aqueles que conseguem marcar uma época não são recordados apenas pelos recursos que possuem. São recordados pela ideia que conseguiram construir a partir desses recursos. É essa ideia que lhes confere identidade, que desperta curiosidade, que mobiliza instituições, empresas, universidades, associações e cidadãos em torno de um objetivo comum.

É também ela que atrai investimento, gera conhecimento e cria oportunidades que, de outra forma, dificilmente surgiriam.

Os recursos continuam a ser importantes, mas deixam de ser o objetivo e passam a ser os instrumentos ao serviço de uma visão. É esta mudança de perspetiva que faz toda a diferença.

Bragança não precisa de renunciar à sua história, ao seu património, à sua ruralidade, à qualidade ambiental, pelo contrário, tudo isso constitui uma base sólida sobre a qual importa construir o futuro.

Mas essa base, por si só, não basta. É necessário organizar todos esses recursos em torno de uma ideia suficientemente forte para criar uma identidade singular, facilmente reconhecida dentro e fora do país.

Essa ideia não pode depender de um mandato político, nem ficar limitada a um programa de financiamento ou a uma obra pública. Também não pode resumir-se a um slogan promocional ou a uma campanha de comunicação: tem de possuir dimensão estratégica, mobilizar vontades, criar valor económico, científico, cultural e social.

Tem de sobreviver às mudanças políticas e continuar a fazer sentido ao longo do tempo. Só assim deixará de ser uma iniciativa isolada para passar a constituir um verdadeiro instrumento de desenvolvimento.

Ao longo destes três artigos procurei demonstrar que Bragança não precisa apenas de mais investimento, mais equipamentos ou mais promoção. Precisa, antes de tudo, de uma ideia suficientemente forte para organizar os seus recursos em torno de um objetivo comum e de uma visão de longo prazo.

Quando uma ideia reúne estas características, deixa de ser apenas uma ideia para se transformar num verdadeiro projeto estruturante.

É precisamente sobre o que distingue um projeto estruturante e sobre a importância que pode assumir no futuro de um território que incidirei no próximo artigo.

Baptista Jerónimo, 26/07/26



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