Manuel Igreja

Manuel Igreja

A História sem esquadria

Num daqueles tempos em que uma pessoa sente que pouca coisa tem a fazer com aquele tempo mais à mão apesar do muito que o tempo sempre faz connosco, mais não seja porque passa e nos vai moldando, decidi escarafunchar nele, no tempo, o mais fundo que me fosse possível à procura dos meus ancestrais.

Futurei de início que no meu caminhar e vislumbrar iria aí até aos duzentos ou trezentos anos, mas não. Como que por artes mágicas, esburaque, esburaquei, como que pulei de galho em galho, e fui até quase cinco mil anos.

A sério. Não acredita? Bem sei. Mas faça de conta que sim. Dá-me jeito aqui no escrito e permite-me ir onde quero. Estamos numa época em que não é não nítida a linha que demarca e realidade da mentira, e por isso não virá mal algum ao mundo se fingirmos um pouco.

Pois bem e então. Descobri que um antepassado meu, foi um rei daqueles de era uma vez. Para desdita dele, foi derrotado por uns meliantes invasores agrupados num poderoso exército e foi feito prisoneiro. Ele e mais o seu povo que amava e por quem era amado. Digo eu, para enfeitar o corrido e o supostamente ocorrido.

Ao que consta ele e mais os seus, feitos escravos, trabalharam obviamente desumanamente na construção das pirâmides, aquelas coisas dignas de assombro quer como testemunho histórico, quer como exemplo de capacidade técnica de elevação e de construção. Ainda hoje, nos espantamos como foi possível semelhante feito e efeito.

Nos labirintos que percorri em busca dos laços e dos nós, fartei-me de descobrir pessoas “minhas” que antes de mim sofreram, que fizeram sofrer, que foram mortos e que mataram. Por exemplo, uma foi queimada numa fogueira pela Santa Inquisição, e outra foi quem alegremente acendeu a pilha de lenha que ardendo matou queimada um outro ser humano também de antes de mim.

Não foi sequer no mesmo ano, nem no mesmo local, mas dizem que como sempre foi nestes casos de purificação perpetrados perante o magnífico e jubiloso público, tudo era visto como normal, como necessário e como aconselhável. Diziam os purificadores e zeladores sem alma, que em nome de Deus Nosso Senhor tais coisas se impunham para que o mundo fosse um lugar melhor.

Mas avançando. Um outro, tinha uma embarcação, uma nau, e acartava escravos de África para cá. Tinha uns nativos por sua conta que se metiam selva adentro para capturar outros de igual condição, pagava-lhes se calhar em moedas de latão, e depois comerciava as presas cujas vidas viravam um indescritível rol de horrores efetivos e sentidos.

Posto isto e neste ponto. Seguindo neste suponhamos, estou a dar por mim a pensar o quanto gostava de ter uma pirâmide do Egipto aqui no Douro, mas para uso próprio, colocada no meio de um monte com vista para o rio. Obviamente enquadrada na paisagem para não destoar nem ser acusado de falta de sensibilidade paisagística.

No seu interior com a ajuda de um competente decorador e de um arquiteto, arranjaria maneira de ter uns confortáveis quartos com WC individual, uma confortável sala com lareira para o inverno, uma cozinha que bastasse para os petiscos, e mais uma coisa ou outra que agora não me ocorre.

Não sei, mas acho que tenho direito. Seguindo a lógica em moda que defende indeminizações por mor do que os antigos fizeram nas suas lutas e labutas, dado ser da linhagem do tal rei que foi reduzido à condição de escravo, sou credor do seu esforço na construção das pirâmides junto ao Nilo. Nunca lhe pagaram.

Assim sendo, que me paguem agora a mim e assim. Sempre se repara e História ao jeito dos que não encontrando causas pertinentes e urgentes apesar do mundo estar a desabar, se dedicam a fazer colheres como sempre faz quem não tem mais que fazer com o tempo que nos é dado gratuitamente.

Com o meu, usei um pouco dele a juntar estas palavras, desejando que vossas senhorias utilizem algum do vosso para as ler e para pensar caso achem que vale a pena o desiderato.

Se virem que tal, exijam também aquilo que considerem de vosso direito, nestes dias insanos que são sinal dos tempos.



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