Baptista Jerónimo

Baptista Jerónimo

“Sejamos Sérios”

A expressão que dá título a esta reflexão banalizou-se nos debates autárquicos. Ao ponto de pensarmos quando a ouvimos: “um candidato que não sabe o que dizer”, “que está a fugir ao assunto”, “que vai mentir”. Ainda assim, pode e deve ser usada quando faz sentido.

O Mercado Municipal de Bragança (2002) têm marcado presença nos debates autárquicos, muito se tem falado e de concreto a conclusão é que os candidatos não têm opinião fundamentada.

O antigo mercado, na Praça Camões, não tinha condições operacionais, higiénicas, nem de acessibilidade. A mudança coincidiu - e até contribuiu - para a alteração de hábitos: passou-se a fazer a totalidade das compras num único local e instalou-se a “moda” de ir a uma grande superfície, como a “gente” das grandes cidades.

Vem a prepósito recordar que foi também nessa altura que o centro ou, com mais rigor, que a zona histórica, começou a esvaziar-se, por razões óbvias e fáceis de entender:

1. As políticas do governo central promoveram a compra de habitação própria. Em alguns casos, a renda equivalia à prestação do empréstimo. Os bancos fizeram o seu papel: aliciaram os clientes a comprar recorrendo ao crédito; no valor do apartamento cabiam moveis, os equipamentos da cozinha e por vezes a troca de carro. Para o cliente, a compra era uma forma de criar património.

2. As casas do centro histórico eram antigas, sem condições de habitabilidade para os padrões da época, sem garagem e carentes de obras. O senhorio não as fazia por não serem rentáveis, o inquilino não tinha capacidade financeira para as suportar.

3. Os serviços públicos estavam a ser deslocados para a periferia: Câmara Municipal, PSP, Bombeiros, Segurança Social, Hospital, Escolas.

Impunha-se, portanto uma nova abordagem à Praça Camões. A intervenção realizada não foi a melhor. O acesso rodoviário pelo Jardim António José de Almeida criou uma barreira entre este, o rio Fervença e o Polis. Depois das obras a Praça Camões tornou-se uma “eira” no verão, um “glaciar” no inverno e uma piscina interior quando chove. Para que praça fosse, de facto, uma praça, era indispensável adquirir a casa “Novais” e abrir uma entrada nobre pela Praça da Sé. Não faltaram alertas ao executivo camarário.

Quanto ao Mercado Municipal atual e à feira semanal:

1. Estão demasiado expostos ao mau tempo.

2. Alguns lojistas não aderiram à mudança e, entre os que aderiram, chegaram à conclusão, após algum tempo, que o negócio não era rentável, tal como não estava a ser no antigo mercado.

3. As carências operacionais, higiénicas e de acesso do antigo Mercado foram colmatadas no atual.

4. O negócio é, fui e será sempre incerto. Basta fazer um exercício de memória: quantas profissões desapareceram nos últimos 40 anos? Quantos negócios deixaram de ser rentáveis? A adaptação é uma exigência permanente aos empreendedores.

5. Comenta-se que há lojistas que não conseguem rentabilidade para pagar a renda. Só no Mercado Municipal? Quantos negócios fecham e abrem no resto da cidade? Quantos fizeram estudo de mercado antes de abrir?

6. Sou cliente assíduo do Mercado Municipal, sobretudo pela qualidade e simpatia de duas lojas: o talho Manuel Moreira e da Balbina. Podia juntar mais três ou quatro. Será que estes lojistas dirão que não ganham para a renda?

7. É obrigatório repensar a continuidade do Mercado Municipal neste local, mas primeiro é preciso definir para que tipo de lojistas, de oferta e de clientes.

Deixo cinco exemplos de mercados municipais modernos. É, aliás, um dos espaços que procuro visitar em cada cidade por onde passo.

O Mercado Municipal de Bragança terá de ser à dimensão de Bragança: sonhar alto, ser visionário, empreendedor e ir mais além, mas com os pés bem assentes na terra. É isto que se espera de um autarca.


• Markthal (Roterdão, Países Baixos)

• Mercado da Ribeira / Time Out Market Lisboa

• Mercado do Bolhão (Porto)

• Mercado de San Miguel (Madrid)

• Mercat de la Boqueria (Barcelona)



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