Após semanas de promessas, confrontos e apelos emocionais, a lei impõe o dia de reflexão. É o momento em que os candidatos são obrigados a calar e os eleitores são convidados a refletir, para a tomada de decisão. Mas, num tempo em que as redes sociais estão disponíveis e a política partidária permanentemente presente, será que a reflexão em silêncio ainda existe?
O dia de reflexão nasceu numa época em que a campanha se fazia em praças, cartazes, microfones e no contacto com os eleitores. Era um ato simbólico, destinado a evitar que o voto fosse influenciado à boca das urnas. Hoje, a realidade é bem diferente: as campanhas abusam das redes sociais, do WhatsApp, de vídeos e mensagens, onde os “likes” parecem contar como votos.
Para muitos, o dia de reflexão é apenas uma formalidade incompreensível; para outros, ainda é o respeito pelo eleitor. Neste dia não se trata apenas de calar os políticos, mas de dar voz à memória, à razão e à responsabilidade de cada um, no seu espaço, sem interferências. A pergunta impõe-se: alguma vez foi realmente respeitado? Não houve telefonemas de última hora? Visitas de apelo, disfarçadas de cortesia?
Manter o dia de reflexão é reconhecer que a democracia ainda exige respeito por regras. Há também um lado humano neste intervalo. Pode ser visto como um dia de descanso depois de uma maratona eleitoral, que começa cedo e acaba tarde, dia após dia. O dia de eleições também é muito exigente para candidatos, membros de mesa, delegados, autarcas, jornalistas, forças de segurança e CNE. Todos sabem que o dia seguinte será longo e cansativo. Por isto, esta pausa justifica-se, para muitos é um recarregar de baterias antes de mais uma jornada cívica que requer cabeça fria e espírito de serviço.
A salvaguarda deste dia tem sido posta em causa, sobretudo pelo voto antecipado e pela influência dos telemóveis na utilização dos SMS e do WhatsApp e das redes sociais, fundamentalmente. É uma posição legítima e, como dia de reflexão, até compreensível. Já como dia de descanso é justificável. Então é a nomenclatura que está errada? Vale a pena mudar o nome?
A democracia vive do debate, mas também de momentos de silêncio lúcido, de ponderação, de avaliação dos prós e contras dos candidatos e dos partidos.
O dia de reflexão não precisa de ser o que era no passado, pode ser um sinal de maturidade, o instante em que os eleitores fazem a introspeção antes de escolherem o caminho que querem para o país, para o concelho e para a sua freguesia.
Porque pensar antes de votar, e seguir a decisão individual com consciência, continua a ser um dos atos mais nobres da democracia.