As Greves representam, desde sempre, a luta pela dignificação do trabalho. A sua raiz histórica remonta ao século XVIII, quando a Revolução Industrial, impôs jornadas exaustivas, ausência de direitos e um modelo económico que via o trabalhador apenas como força produtiva. A resposta a esta realidade surgiu através de formas organizadas de reivindicação coletiva, que permitiram, progressivamente, conquistar direitos fundamentais.
Em Portugal democrático, o direito à greve tornou-se um dos instrumentos mais fortes da expressão coletiva dos trabalhadores. O termo greve geral é utilizado para momentos excecionais, em que as duas grandes centrais sindicais, CGTP-IN e UGT, convergem para convocar uma paralisação nacional no mesmo dia e com uma plataforma reivindicativa comum. Isso aconteceu apenas quatro vezes desde 1974.
A primeira greve geral ocorreu em 1988, durante o governo de Aníbal Cavaco Silva, num contexto liberalização económica e revisão profunda das leis laborais. As medidas propostas eram vistas como uma ameaça a direitos fundamentais e desencadearam uma mobilização inédita. A paralisação foi massiva e abriu um período de forte tensão entre governo e movimento sindical.
A segunda surgiu em 2002, durante o executivo de Durão Barroso. O motivo foi uma nova revisão do Código do Trabalho, conduzida pelo ministro Bagão Félix, em que flexibilizava horários, facilitava despedimentos e punha em causa o equilíbrio nas relações laborais.
A terceira ocorreu em 2010, com José Sócrates como primeiro-ministro. O país já sentia o impacto da crise financeira internacional e das primeiras medidas de austeridade. O congelamento de salários, à contenção no setor público e às crescentes desigualdades sociais, estiveram na origem.
A quarta greve geral teve lugar em 2013, sob o governo de Pedro Passos Coelho, em plena presença da troika. Foi a expressão máxima do descontentamento social acumulado: cortes em salários e pensões, desemprego em níveis recorde, emigração forçada e um sentimento generalizado de injustiça. Nesse dia, o país parou e ultrapassou o campo laboral para se tornar político e moral.
Estas quatro datas marcam os momentos em que o país parou. Revelam simultaneamente, a força e a capacidade de mobilização do movimento que só se concretiza quando a tensão social atinge níveis verdadeiramente excecionais.
Em todas estas greves gerais conjuntas houve um denominador comum – à reforma do Código do Trabalho que pretendiam introduzir maior flexibilidade no despedimento, reduzir proteção, austeridade, cortes salariais e alterar normas laborais.
A verdade é que, pela experiência portuguesa, as greves gerais acontecem mais frequentemente durante os governos de direita, que tendem a promover reformas estruturais com impacto direto nas relações laborais favoráveis ao empregador. Já os governos de esquerda, embora também enfrentem contestação sindical, beneficiam de maior afinidade política com reivindicações dos trabalhadores, ainda que nem sempre consigam satisfazer as expectativas.
Num contexto de precariedade crescente, de economia digital desregulada e de custo de vida sufocante, estas greves recordam-nos algo essencial: a solidariedade laboral continua a ser um dos pilares mais robustos da democracia. E sempre que os trabalhadores se sentem empurrados para além do limite aceitável, o país volta a ouvir a sua voz de forma clara, coletiva e inadiável.