Baptista Jerónimo

Baptista Jerónimo

Entre o voto: Sim, o Não e o Nada.

Quando nos questionamos, em quem vamos votar, porque votamos, em quem não queremos votar ou até se vale a pena votar, estamos, na verdade, a interrogar a essência da própria democracia.

Esta reflexão acompanha-me há algum tempo. Para simplificar, podemos agrupar as formas de expressão do voto em cinco grandes alternativas: a favor; contra; indiferente, de protesto e a abstenção.

O voto a favor é o mais espontâneo e afirmativo. É o voto que nasce da vontade clara de apoiar a pessoa A ou o partido B, porque se acredita nas suas ideias, na sua liderança ou na coerência do seu percurso. É o voto da afinidade, militância e da confiança. É também o voto que confere estabilidade e legitimidade a quem é eleito. Neste grupo cabem igualmente os simpatizantes mais dogmáticos, sobretudo das franjas mais extremas, à direita e à esquerda, que votam por convicção ideológica profunda.

O voto contra é o mais poderoso, chega a valer a dobrar quando há corrida a dois e transferência direta de A para B, efeito imediato retira a um e acrescenta a outro. É o voto escondido, que pode ser decidido na intimidade da urna, tanto pode resultar de convicções políticas como de relações pessoais, familiares ou circunstâncias momentâneas. O seu impacto político é tremendo, impede mais do que elege.

O voto indiferente, traduzido normalmente em voto em branco, é o gesto de quem perdeu a confiança, mas não abdica de participar. É o voto do desencanto ou da indecisão. Representa o eleitor que não se revê em nenhuma candidatura, mas que quer, ainda assim, deixar o seu sinal de presença. Pode ser lido como apelo à renovação, à qualidade e à seriedade da política ou, nalguns casos, como expressão de um certo egoísmo: “nenhum tem qualidade”.

O voto de protesto é outro tipo de mensagem. Manifesta-se nos boletins rasurados, rabiscados, com frases de raiva, ironias, insultos ou até desenhos. É um voto emocional, um grito de frustração. Não elege, não muda mandatos, mas é um sintoma social relevante: o eleitor quer ser ouvido.

Por fim, há a abstenção, a ausência total do voto. É a expressão do cansaço e da descrença: “são todos iguais”, “só querem é tacho”, “eu já não acredito em ninguém”. É o afastamento, a desilusão completa com o sistema.

O voto em branco e o voto nulo medem o descontentamento, mas não alteram mandatos. Alguém já sugeriu, em tom irónico, que os votos em branco deviam traduzir-se em mandatos, com as cadeiras vazias na Assembleia da República, uma ideia tão provocadora quanto simbólica: dar corpo à não participação!

O verdadeiro desafio está em transformar a desconfiança em exigência construtiva, com mais debate de ideias, mais transparência, mais proximidade. Participar positivamente não é concordar com tudo, é valorizar o pluralismo em regras claras.

A democracia é liberdade com responsabilidade. O caminho faz-se a votar, a exigir e a participar, mesmo quando é para dizer: “não, assim não”.

Ainda temos um longo percurso pela frente para que mais pessoas participem de forma positiva. É verdade que não votar também é um ato democrático, porque a liberdade inclui o direito de se abster. No entanto, é difícil não considerar censurável a apatia perante um direito conquistado com prisão, sofrimento e morte.

Nota: voto obrigatório seria um atentado à essência da democracia, que se funda na liberdade individual. Mas votar continua a ser um dever moral.

Baptista Jerónimo, 05/10/25



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