Baptista Jerónimo

Baptista Jerónimo

Desertificação

É de enlouquecer,

Complicam para nos adormecer,

Prometem o oásis só para entreter,

Na esperança de o povo esquecer.

É isso que os vários governantes dos partidos do “arco da governação” têm feito: iludir-nos. Vendem esperança aos pais que sonham ver os filhos a viver na terra, com dignidade, com trabalho honesto, com remuneração justa.

Mas esta situação não é nova. Já dura há quase um século! Cem anos em que o interior, em particular Trás-os-Montes, enfrenta sempre o mesmo problema: o êxodo. Nos anos de 30 a 60 do século passado, os nossos antepassados emigraram para a América do Sul em busca de vida melhor. Depois, dos anos 60 em diante, para a Europa. Já neste século, não só perdemos apenas braços para o trabalho, como perdemos jovens altamente qualificados que outros países sabem valorizar. Ironia cruel: foram formados com os nossos impostos, mas são outros a colher os frutos.

E assim, enquanto adormecemos e os nossos antepassados descansam no sono dos justos, continuamos a ser enganados, até com estilo. Criam-se secretarias de estado, ministérios, comissões, promessas… mas nada muda. Ou melhor, muda para pior. E nós seguimos a votar, eleição após eleição, alimentando discussões estéreis entre o partido A que é melhor que o B. Não nos iludamos, um pode ser menos mau que o outro, mas não chega. É preciso inventar soluções ou, acabaremos todos a “afundar no mar”.

Todos ouvimos, vezes sem conta, os chavões: desertificação, coesão, fixação, atração, desenvolvimento sustentável, preocupação. Mas… preocupação? De quem? Com quem? No fim, todos esses chavões resumem-se a um só: desertificação.

Vamos ser claros e objetivos só há uma causa na desertificação: a falta de gente no interior.

Só há uma solução deslocar pessoas do litoral para o interior.

E isso só se faz com emprego real e efetivo.

 Aqui, Estado e as Autarquias, não podem ser tímidos nem fingir ação. A migração do interior para o litoral não afeta só o interior: sobrecarrega o litoral com falta de habitação, pressão nos serviços de saúde, insegurança e má qualidade de vida. Sem contar os custos públicos crescentes em arruamentos, parques, jardins, transportes, água e saneamento.

O que fazer? E, aqui temos algumas opções que se devem complementar.

O Estado pode deslocalizar serviços, descentralizar, tarefa difícil, mas necessária. Pode incentivar empresas a investir em localidades de baixa densidade populacional, por exemplo, com isenção de IRC e Segurança Social nos primeiros cinco anos, e benefícios fiscais adicionais nos cinco seguintes. Decisivo é a ferrovia e aeroportos regionais.

As autarquias, têm a maior obrigação, seja no investimento próprio ou, na pressão junto do poder central. Por si, podem apoiar disponibilizando terrenos; isenção de taxas, redução do IMI, apoio em transportes e habitação, creches, guarda dos filhos para lá do horário de aulas, água e outros bens essenciais, não esquecendo os resistentes que nunca abandonaram a região, ou então vêm uns e vão outros.

Hoje, o investimento ainda é suportável. Amanhã poderá ser tarde demais, ou então será necessário duplicar, ou triplicar os apoios. Não há tempo a perder. É urgente agir.

Enquanto os votos do litoral pesarem mais que a vida no interior, a desertificação continuará a vencer.

Baptista Jerónimo, 31/08/25



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