A insistência dos candidatos em se apresentarem como “independentes” de partidos, na prática, é uma hipocrisia. Procuram criar a perceção de que uma vez eleitos, não serão favoráveis à sua família política. A experiência mostra o contrário: no primeiro mandato, são cordiais com governos de cor política oposta e, no segundo, surge frequentemente a “antipatia” estratégica.
O único Presidente da República, sem ligação direta a qualquer família política foi Ramalho Eanes. No contexto do 25 de Abril, surgiu como uma figura militar independente. Porém, depois de eleito em 1976 e reeleito em 1980, ganhou influência própria no xadrez partidário, influência que se tornou evidente quando, em 1985, promoveu e apoiou a criação do PRD - um partido estruturado em torno da sua autoridade moral e política.
Na verdade, os candidatos procuram desde cedo o apoio formal na sua origem partidária e de partidos ideologicamente próximos. Nos bastidores, repetem-se as trocas táticas de benefício: “juntos fortalecemo-nos”, “agora ajudas tu, e depois ajudo eu”. Houve até quem defendeu: “Quero um Governo, um Presidente e um Primeiro-Ministro”, Sá Carneiro (1980) justificava, que o país precisava de “coerência política”, entendendo que o país precisava de chefias sintonizadas. Mário Soares (1986), pelo contrário, lançou o celebre aviso: “não podemos por ovos todos no mesmo cesto”.
Curiosamente, nesta eleição, com exceção para o candidato Cotrim Figueiredo - único cuja intenção de voto aparece superior à IL, os restantes candidatos valem, neste momento, menos eleitoralmente do que as organizações partidárias de onde saíram ou militam. O Almirante Galvão e Melo poderá ser o deposito dos votos dessa diferença.
.
O caso mais surpreendente, para alguns, é o candidato António José Seguro. Depois do apoio formal do PS, tem vindo a cair nas sondagens. Em maio escrevi: “Tenho poucas dúvidas – para não dizer certezas – de que, no atual quadro político e no estado em que se encontra o PS, um eventual apoio a AJS seria, possivelmente, um ganho para o próprio partido socialista.”. E, o partido está a subir!
A lei eleitoral para a eleição presidencial necessita de reforma profunda. Muitos já apresentaram propostas - eu incluído. Mas, para esta eleição, o sistema atual tem um mérito e um defeito. Quem definiu a regra dos 50% +1, quis, ao que tudo indica, reforçar a representatividade e maior legitimidade do Presidente. O defeito é que sempre que há segunda volta, emerge o voto útil, que distorce a expressão democracia - deixa de ser um voto a favor para ser um voto contra.
Venham os debates e o esclarecimento público. Que a elevada participação, favorecida pela multiplicidade de candidatos, permita votos conscientes e convictos.