Baptista Jerónimo

Baptista Jerónimo

Candidatos e propagandistas

Tudo indica que vamos ter oito candidatos a Presidente da República. Ou, pelo menos, oito nomes no boletim de voto, porque, pelos debates e declarações públicas, poucos se comportam como verdadeiros candidatos.

O André Ventura sabe, ele e nós, que pelas intenções de voto pode passar à segunda volta. Mas, nesse embate, perde para todos os possíveis opositores. Em vez de discutir o cargo, as suas competências ou o papel moderador, revisita as habituais bandeiras: corrupção, ciganos, imigrantes, o “sistema”. Alimenta o seu eleitorado.

António Filipe representa um PCP imutável, preso às suas certezas enquanto o país e o mundo se transformam. O partido está perto do estado vegetativo, ou já nele, mas a ordem é para aguentar, mesmo sem tropas, simpatizantes ou militantes suficientes para sustentar a ambição presidencial.

António José Seguro um dos candidatos a presidente puro e simples. Socialista que se quis afastar do PS, mas ao qual o partido tardou a juntar-se. O problema é precisamente esse: ficou no vazio. As vozes críticas surgiram cedo, figuras com pouca simpatia popular, mas suficientemente ruidosas para desgastar. O afastamento, que poderia ser vantagem, tornou-se fraqueza: ficou sem tropas no partido e sem eco na opinião pública.

Catarina Martins vem numa missão impossível: tentar recuperar o eleitorado do BE, que perdeu força, influência e seguidores. Apresenta-se com causas, convicções e energias, mas falta-lhe base eleitoral. Traz alegria, prevê-se que leve tristeza.

Cotrim de Figueiredo continua a não deixar claro ao que vem. A candidatura dá a ideia de ser uma devolução de favor ao “lugar de sonho” de deputado europeu. Está em contraciclo com o que vinha defendendo. É liberal assumido e não perdeu, num passado recente, a oportunidade para defender a ideologia. Fica a impressão de que se está a posicionar para regressar à liderança do partido. Um banho de realidade e humildade assentava-lhe bem.

Gouveia e Melo é o único com um percurso apartidário real. O que não lhe traz vantagem e até lhe pode ser prejudicial no exercício. Um independente de farda, disciplinado e imagem sólida. Começou como um candidato ganhador, sem disputa, arrasador. A campanha e os debates arrefecem a candidatura e apoiantes. As intenções de voto desceram à medida que surgiram novas candidaturas.

Jorge Pinto apresenta-se simpático, moderado e conhecedor, e tem marcado terreno com ideias do seu jovem partido. Irreverente próprio da idade, mas adulto no pensamento. Por enquanto, está a passar ao lado de um candidato presidencial.

Marques Mendes é efetivamente candidato presidencial, apartidário no momento, o que não o pode desvalorizar, não fosse a tendência para defender o partido de origem e do seu líder. É o candidato mais parecido com o atual Presidente: no estilo, na postura, no percurso. E isso, longe de ser vantagem, é um alerta: mais do mesmo, para um Estado que precisa de menos hesitação e mais ação responsável. Esperar muito dele será otimismo excessivo.

E aqui reside um ponto essencial: se os partidos de esquerda tivessem verdadeiro interesse em defender o Estado Social, o SNS e contribuir para um país desenvolvido com igualdade de oportunidades, juntar-se-iam em torno do candidato mais bem posicionado para garantir esses valores.

Infelizmente o discurso não é coerente com o comportamento. Parece evidente, neste momento, que só dois candidatos têm hipóteses reais de chegar à segunda volta. Entre António José Seguro e Gouveia e Melo, o que conseguir passar será, muito provavelmente, o próximo Presidente da República.

 Baptista Jerónimo, 30/11/25



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