Terminada a encenação da campanha e encerradas as urnas, ainda sem se conhecerem os resultados, é já possível antecipar um desfecho preocupante para Bragança. Mais do que uma disputa eleitoral, estas eleições revelaram confronto entre o EU, avivado, e o NÓS, modesto.
Durante meses, tanto a pré-campanha como a campanha, pautaram-se pelo vazio de propostas e pela superficialidade do discurso. A campanha do EU começou mal, logo com dificuldades em compor listas credíveis. As Juntas de Freguesia escaparam com alguma dignidade, mas a Assembleia Municipal foi um desastre anunciado: o cabeça de lista, imposto pelo controlador da candidatura, tinha um único propósito - assegurar os pré-acordos, caso o EU vencesse. No executivo, o cenário não foi mais nobre. Houve convites sem critério, sem avaliação de mérito, sem reconhecimento de capacidades. Negociações de última hora tentaram “melhorar” as listas. Faltou humildade, sobrou soberba.
Do lado oposto, o NÓS, (PSD/CDS), também não viveu tempos pacíficos. Entre ameaças de listas independentes e tentativas de imposição de candidatos alternativos, prevaleceu a coragem de manter a decisão partidária. A concelhia libertou-se das amarras de uma família e avançou para a campanha com sentido de militância. As listas, embora sem consenso, foram discutidas e votadas em assembleia, cumprindo os estatutos e respeitando os militantes. Deu-se voz à democracia interna, algo que, nos tempos que correm, é raro.
Quanto aos programas eleitorais o retrato é desolador. O programa do NÓS é a continuação da rotina: gestão corrente, ausência de ideias, alinhamento com anos anteriores. Tudo assente na velha máxima de que o importante não é transformar, é garantir votos entre abraços, promessas e favores. É a política da “proximidade” convertida em compadrio, onde o eleitor é tratado como cliente e o voto como moeda de troca. Obras repetidas de programas antigos completam o cenário. Foi assim no passado, é assim no presente e, ao que tudo indica, será assim no futuro.
O programa do EU, por sua vez, começou com intenções que pareciam sérias, um grupo de trabalho, um levantamento das necessidades, mas rapidamente se perdeu em torno de si próprio. O que poderia ser um exercício coletivo de diagnóstico tornou-se uma montra pessoal de protagonismo. Dessa “reflexão” saíram os “eixos”! Depois foram inventariados três problemas, que nem são os maiores, mas não deixam de ser muito importantes: ETAR, Praça Camões e Rio Fervença, sem uma única solução concreta, não ficasse o estratega indisposto. Quando os debates chegaram, esperava-se afirmação e clareza. Ficámos com “avisos” e generalidades. A diferença que prometia ser substância tornou-se pose. A campanha foi, no fundo, a celebração do EU: dez meses de coroação de um projeto centrado na imagem, não na cidade.
O Partido Socialista teve, nesta eleição, todas as condições para vencer: contexto favorável, adversário fragilizado, quadros no partido qualificados, divisões no PSD e até duvidas sobre a idoneidade de alguns protagonistas. As circunstâncias foram tão propícias e tudo foi desperdiçado em nome do EU. Mesmo que o convite tivesse vindo do secretário-geral, que os estatutos não o permitiam. E, ainda que a candidata fosse a mesma, a diferença seria profunda: não haveria o mentor na sombra, nem a campanha seria movida por ressentimento pessoal. Teria sido uma candidatura por Bragança, não contra alguém.
No balanço, a escolha dos eleitores reduziu-se à dicotomia entre o NÓS e o EU.
E, quando assim é, o povo tende, mesmo sem entusiasmo, a escolher o NÓS, porque o instinto coletivo vale mais do que o egocentrismo.
Bragança não pode continuar refém de projetos pessoais, nem de estratégias que tratam o poder como espelho. A cidade precisa urgentemente de reencontrar o sentido de comunidade, de responsabilidade partilhada e de ambição coletiva.
Enquanto persistir o culto do EU, Bragança continuará a definhar entre a aparência, o poder de poucos e a resignação de muitos. E o futuro, esse que se constrói com generosidade, visão e estratégia ficará, mais uma vez, adiado.