Luis Ferreira

Luis Ferreira

Uma coroa por um fósforo

Numa ignominiosa mente onde os poalhos são tão obscuros e invisíveis, nunca serão percetíveis as razões verdadeiras que levam um individuo tão irracional como o maior criminoso, a pegar fogo na berma da estrada ou no monte mais próximo.

No tempo em que havia coroas e que ela era somente cinco tostões e duas faziam dez tostões o que era um escudo, uma caixa de fósforos custava um cruzado, ou seja, quatro tostões, comprar uma caixa de fósforos, era certamente mais difícil do que é hoje. No entanto, nesse tempo os fósforos eram indispensáveis para acender as lareiras e quem tinha a sorte de ter um fogão a gás, tinha de comprar fósforos e poupá-los. Eram tempos difíceis.

Hoje, além de fósforos, há isqueiros e não servem só para acender cigarros. Cada vez mais se vêm menos fósforos, talvez porque são demasiado baratos ou talvez porque não dão jeito nenhum metê-los no bolso das calças. Ocupam demasiado espaço. Mas há sempre quem os use, nem que seja somente para deitar fogo no pinhal do vizinho ou na erva seca da ribanceira ali ao lado. Porquê? Ou para quê? Nada acontece por acaso.

Se perguntássemos a um incendiário razoavelmente inteligente a razão de pôr fogos em todo o lado, ele possivelmente diria que lhe pagaram para o fazer e como não era desprovido de toda a inteligência, diria que tudo era uma questão de negócio. Muito negócio e muitos interesses.

É deveras impressionante a dor que causa tanto fogo nas florestas portuguesas e ainda mais dói quando se perde a casa que tanto custou para construir, a horta, a vinha e o pinhal de onde se retirava as achas para atear a lareira nas noites de invernia e onde se secavam as alheiras e as chouriças que alimentavam as gentes das aldeias do interior e não só. A quem servem estes fogos?

Quem paga ao incendiário anónimo que risque um fósforo na vereda mais próxima, tem interesses enormes em tudo o que vai arder. Existe uma dependência enorme desde o fósforo até ao avião que descarrega a água para apagar o fogo que alguém pagou para render dividendos a outros que dele dependem. As árvores que ardem são madeira barata que os madeireiros compram a baixo preço e enviam para as indústrias que irão transformá-las em móveis e até em fósforos. As florestas de eucaliptos que ocupam hectares extensíssimos são necessárias às celuloses para o fabrico de papel. São combustível terrível que consegue arder e não desaparecer, já que passados dois ou três anos voltam a rebentar e a tornar-se pujantes. Não há regulamentação governamental eficaz para acabar com esta infestação florestal. As celuloses deveriam tomar conta dos seus terrenos, limpá-los e torná-los rentáveis sem prejudicar os terrenos dos outros. A verdade é que o que arde fora do que pertence às celuloses, também é encaminhado para as suas fábricas de transformação, uma vez que para nada serve perante as caraterísticas desta madeira demasiado rija.

Mas o fogo também interessa a quem produz as fardas para os bombeiros. Se não houver fogos não são necessários bombeiros ou pelo menos tantos, nem tantas fardas, nem tantos carros de bombeiros. Aparecerem fogos todos os anos, um pouco por todo o lado, interessa sim e a muitos. Os aviões próprios para apagar incêndios, os helicópteros tão necessários na ajuda ao domínio dos fogos, só são produzidos porque os combates contra os fogos o exigem e os bombeiros agradecem. Assim, as fábricas que produzem estes aviões e helicópteros, iriam à falência se não houvesse incêndios e por isso mesmo tem de haver fogos e alguém tem de os atear e alguém tem de pagar aos criminosos sem escrúpulos que riscam o fósforo que pouco custou. Até mesmo as fábricas de calçado especial para os bombeiros, precisam de continuar as produzir as botas e todos os acessórios de que necessitam para o combate aos fogos.

Há, pois, um negócio demasiado abrangente à volta dos fogos. Quase nos apetece dizer que os fogos são imprescindíveis à sobrevivência de muitas indústrias. É verdade, mas é triste. O que não é aceitável é que esses interesses trucidem a vida dos que nada têm a ver com esses negócios e percam tudo o que construíram ao longo de uma vida de sacrifício.

Claro que também é verdade que nem todos os fogos são de origem criminosa, mas estes são os que, possivelmente seriam de mais fácil controlo e domínio. Um fogo que aparece às três ou seis horas da madrugada, não é certamente devido ao calor do Sol.

Todos os anos durante os meses de Verão, chegam os fogos como se também eles viessem passar férias, alimentando-se do que granjeámos nos outros meses do ano. Comem muito e morrem de barriga cheia. É pena que baste uma coroa para comprar um fósforo!



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