Luis Ferreira

Luis Ferreira

A liberdade de expressão

Durante muitos séculos, o homem teve de medir muito bem o que queria dizer para não ser castigado das mais variadas formas. O poder de quem mandava era demasiado para aceitar que alguém criticasse o que fazia, daí que quem o fizesse sofreria o castigo que aprouvesse ao tirano.

Desde a antiguidade que os povos oprimidos tiveram de se sujeitar a este tipo de poder e ajustaram-se sem outro remédio, à submissão do mesmo. Vai longe o tempo de Assurbanipal que aplicou o ditado que dizia “olho por olho, dente por dente”. Destinava-se a limitar os abusos impondo o medo. Deu algum resultado numa época em que a humanidade dava os primeiros passos na sua evolução civilizacional. Hoje, talvez a sua aplicação fosse demasiado exagerada e descabida, muito embora, em casos muito específicos pudesse impor o medo que seria impeditivo a alguns abusos desconformes e atentatórios da dignidade humana.

Sem temer o uso da palavra e aplicando-a como uma arma de arremesso, muitos políticos e não só, manobram os vocábulos com mestria e de tal modo que só nas entrelinhas descortinamos o seu verdadeiro significado. Contudo, outros são tão diretos na sua utilização que não necessitamos de buscar significados rebuscados para entender o que querem dizer.

Para evitar abusos de linguagem e críticas ao poder, o homem lutou durante séculos para conseguir a liberdade de expressão. Falar sobre tudo e todos sem temer o peso das sanções era o objetivo e foi conseguido. No entanto, mesmo assim, os abusos da linguagem e o modo como se usa a palavra, é muitas vezes tão agressivo que deveria merecer castigo. Não vale tudo.

São muitos os exemplos em que a liberdade de expressão é questionada e criticada, especialmente quando atinge determinadas pessoas que representam, elas mesmo, a liberdade em âmbito geral e que lutaram por ela. Saber usar a palavra meritoriamente é um dom. Usá-la como arma é um crime.

Nos últimos tempos temos criticado as atitudes de Trump e o que ele diz, muitas vezes sem freio na língua, pois nem sempre é coerente. Hoje diz uma coisa e amanhã o seu contrário. Chama nomes a quem quer, acusa quem quer e ameaça os que se lhe opõem, numa tentativa de intimidação para conseguir a subserviência de alguns. Não tem tido muito êxito e até já teve de se vergar às suas próprias exigências. Mais comedido com as palavras é Putin. Fala pouco, é direto, conciso e castigador sem denegrir o seu alvo. Contudo, em vez da palavra, usa os mísseis e os drones para destruir. As suas palavras conseguem mesmo adoçar o espetro louco do antagonista americano que parece ir a reboque do seu namoro. Deste modo vai conseguindo os seus objetivos e ludibriar Trump. É o saber usar as palavras certas ou as que o outro quer ouvir.

No entanto há quem se farte de atirar palavras ao vento e ninguém as quer receber. É o que acontece com o líder ucraniano que, mesmo implorando, poucos o ouvem e lhe dão o que precisa. É verdade que tem toda a liberdade de expressão para o fazer e fá-lo bem, mas não têm o peso suficiente para dobrar o poder de quem pode realmente ajudar. Podemos questionar que legitimidade tem Zelensky para pedir ajuda à EU, mas ele quer apenas defender o seu território que foi abusivamente invadido. Ao invasor podia chamar-lhe todos os nomes mais asquerosos e teria razão, mas, sem ser agressivo, vai criticando e classificando a atitude de Putin embora este nem lhe responda. Há um desprezo latente ou uma inveja esconsa que o impede de o fazer. A melhor forma é a guerra e a destruição. Quem não pode usar a palavra no tempo certo e para o que deve ser certo, usa meios dissuasivos. É pena.

Mas há muitos outros exemplos em que o uso da palavra é abusivo e atentatório. Há poucos dias Angola comemorou os cinquenta anos da sua independência. Foi criticado o discurso de Marcelo e o de João Lourenço, não pelas palavras em si, mas pelo significado que encerravam encaixadas num determinado contexto temporal. A admissão de Marcelo ao facto de os portugueses terem sido colonizadores durante quinhentos anos e até admitir que houve alguns abusos ao longo desse tempo, foi criticada pelo líder do Chega de tal forma que até dá a entender que isso não foi verdade. Foi efetivamente verdade. Houve colonização com todos os desvios de poder que lhe são inerentes. Já João Lourenço ao reiterar essa mesma ideia, que aliás sempre esteve no contexto de comemorações anteriores, mexeu com Ventura de tal modo que até quer condenar no Parlamento, uma e outra ação. Claro que a liberdade de expressão dá-lhe esse direito, mas o modo como o quer fazer e o objetivo, é de outra índole. Pode ser abusivo e desproporcionada a sua atitude e até condenável. Não tem razão. Para cúmulo, o seu vice de bancada também esteve presente nas comemorações. Porquê? Não disse nada. Ainda bem que não fez uso da palavra, pois a liberdade de expressão poderia condená-lo. Coisas da liberdade.



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