Luis Ferreira

Luis Ferreira

À beira do caos

O tempo na sua incomensurável atitude de intransigência e retidão, vai-nos transportando para patamares de realidades completamente díspares, mas que nos advertem para um futuro cada vez mais incerto. No entanto, o homem, na sua generalidade, não se convence que os ensinamentos são para aplicar e, do mesmo modo, impedir que o que é mau não pode acontecer.

Infelizmente, essa realidade acontece a cada dia que passa, quer pela ignorância política, quer pelo desprezo social, quer pela ambição desmesurada de quem tem o poder e o pode usar a seu bel-prazer.

Nos países ditos democráticos, as eleições permitem, de algum modo, controlar os desvarios de uns e impedir as arrogâncias de outros. Tal como se diz, o voto é a arma do povo e é ele que escolhe quem o deve governar, mas apesar disso, o povo também se engana e se não se engana, vai pelo menos atrás de cantares de sereia.

Veja-se o que está a acontecer nos EUA. O povo escolheu, ao que parece, um Presidente que prometia mundos e fundos e, neste momento não tem mais do que 30% de apoios, sendo que estes apoios são de pessoas tão ou mais ignorantes que o próprio Presidente e seus acólitos. A América está a ferro e fogo em alguns Estados, especialmente os que são de maioria democrática, ou seja, contrários à política de Trump, que embora republicana também é ditatorial. Para atingir os seus objetivos, vai dando caça aos imigrantes ilegais e não só, causando o caos social e político, usando uma polícia especial para imigrantes, o ICE, que nada mais faz do agir como quer e entende, já que lhe dão essa prerrogativa. E, deste modo, vai matando que se manifesta ou tem uma cor de pele diferente ou fala outra língua que não a americana.

A América tem ainda três anos para suportar este presidente, mas a continuar assim, pode eventualmente, acontecer uma revolta interna gigante e o caos sobrepor-se a uma política autoritária e descontrolada de um Presidente que só pensa nele, no seu ego gigante, no seu poder e em objetivos económicos onde a família possa sair com os bolsos recheados.

A América já viveu uma guerra civil e pode estar à beira de mais uma que destruirá todo o poder de que se tem orgulhado. Os EUA sempre disseram que não queriam ser os polícias do Mundo, mas com Trump, que não quer guerras, nada mais tem feito do que meter-se nelas e sem resultados credíveis. Ele diz que já terminou com 8 guerras, mas a realidade mostra o contrário. Ele tem ajudado as guerras que acontecem por todo o lado. É só olhar para a Ucrânia, para Gaza, para o Irão, para Israel, para a Venezuela, para a Gronelândia e mais algumas em África a que não dá grande importância. Qual delas acabou? Nenhuma. Lançou o fogo e agora deixa arder à espera que alguém apague. No fundo, lança o caos e como não pode resolver, arranja desculpas ou culpa os outros, como a Europa, das situações belicosas onde se mete.

No Minesota, Estado onde os democratas são maioritários, vive-se um autêntico caos resultante da ação incontrolada do ICE. Por ordem do Presidente, eles atuam a matar com a intenção de culpar o governador do Estado de incapacidade de controlar os imigrantes ilegais. O resultado e as provas provam o contrário, mas as desculpas para os desvarios dos agentes policiais, são armas de arremesso quer do Presidente, quer do seu Vice, que ainda é mais tonto que ele. O caso é que o governador do Minesota é o possível candidato democrata a Presidente no próximo ato eleitoral e é preciso fazer alguma coisa para o descredibilizar. Além disso, ele foi o adjunto de Kamala Harris na corrida à Casa Branca nas últimas eleições, o que lhe causa arrepios tremendos. Outros Estados já se vão manifestando contra a política atual e o estado de sítio é cada vez mais uma realidade nesta América irracional.

A tentativa de dividir a América entre Republicanos e extremistas de esquerda, penso que não irá resultar, para bem dos americanos e mesmo do mundo livre e democrático. Claro que às outras potências como a China e a Rússia, isso não interessa sobremaneira, embora elas sejam politicamente antagónicas. Por trás estão os interesses económicos e as dependências das rotas comerciais internacionais que lhes dão a sustentabilidade de que tanto precisam. Contudo, isso não impede as guerras económicas que entre eles se vão desenrolando, especialmente a das tarifas que Trump usa como arma primordial, obrigando os outros a baixar as orelhas. Mas, como já nos habituou, o que Trump diz hoje amanhã diz o seu contrário. O recuar é já uma marca da política internacional de Trump. Ameaça todo o mundo e depois espera pelo resultado, antes de recuar. A América já está a sofrer com esta política desnaturada. Enfim!

À beira do caos, Trump já não tem mão segura numa América que vê virar-se contra ele e os seus desígnios. As próximas eleições intermédias não lhe são favoráveis. Talvez ele aprenda a lição e emende alguma coisa na sua ambição de mostrar ao mundo que é o maior e mais poderoso. Se perder, definitivamente, vai acontecer algo de grave e não será a seu favor. Por vezes o caos é necessário para colocar ordem nas coisas ou pôr as coisas em ordem.



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