Luis Ferreira

Luis Ferreira

O assalto do ditador

Subitamente, como por artes mágicas, a nossa atenção foi desviada completamente para outras paragens, que não a da Ucrânia a que já nos habituámos. A comunicação social tem esta particularidade e força que consegue mexer com todo o nosso sistema cerebral.

Depois de tantos e tantos meses a sermos bombardeados pela guerra ucraniana e pelos desatinos da Federação Russa, eis que somos chamados a outra realidade. Talvez não fosse inesperada dada a clivagem entre os protagonistas, mas pelo menos foi inesperada. Inesperada no tempo e no modo. O assalto à casa do ditador Venezuelano, Nicolás Maduro e o seu rapto e da esposa, foram obra de muita astúcia e treino, além do conhecimento pormenorizado do local. Claro que Trump não brinca em serviço e não podia falhar nesta operação. Enquanto todos estavam entretidos com os bombardeamentos dos barcos de droga que cruzavam o mar em direção aos EUA, supostamente, outra operação estava já em marcha. O que fica em dúvida é a legalidade da mesma.

Entrar num país soberano com tropa armada, raptar o seu Presidente e levá-lo para os EUA para ser julgado, está completamente fora do Direito Internacional. Quem autorizou Trump a entrar na Venezuela, assaltar a casa do presidente, raptá-lo e levá-lo para os EUA? Com que direito ele pode fazê-lo? Não há direito nenhum que lhe permita tal atitude. As razões que ele deu baseadas no suposto combate às drogas que iam para os Estados Unidos, não passa de uma mera desculpa, pois sabemos perfeitamente que o interesse está na exploração do petróleo e no seu comércio. Todos conhecemos bem o que movimenta os interesses de Trump.

Deste modo, iniciou uma política de tiro ao alvo, sendo que os alvos são vários, desde a Venezuela à Colômbia indo mesmo até à Gronelândia. Não é que o gelo lhe interesse muito, mas sim o que está debaixo dele. A questão da defesa que ele invoca é somente parte da razão que poderá ter, pois outros peões têm movimentações de igual teor e interesse, como a China e a Rússia. Mas a Trump não interessa entrar em conflito com a Dinamarca a quem a Gronelândia pertence. Esta é membro da NATO, tal como os EUA e o confronto poderia acabar a com a Aliança, o que seria desastroso para a América. Há que negociar um modo e um estratagema para permitir a Trump ter lá meios de defesa alargada que possam enfrentar os rivais e controlar o Ártico. Assim, poderá explorar os metais e terras raras, além de outas coisas, sem que a Rússia ou a China se metessem no meio.

No fim de contas, o que Trump quer é dominar a seu bel prazer o que tiver interesse económico para a América e para ele pessoalmente, pois não basta acusar os outros líderes de interesses inerentes às suas movimentações, será necessário olhar para o seu umbigo e ver quais os interesses da família Trump em tudo o que anda a fazer, desde o Médio Oriente até à Venezuela, passando pela Ucrânia. Qual será o papel do genro de Trump em todo este processo? Uma pessoa que não percebe nada de política e, se calhar, de negócios tão pouco? Um polvo enorme está a formar-se seguramente.

Tudo isto teve o condão de virar a atenção de todos os países para o que ele faz, diz e ameaça, como se fosse o dono do mundo, relegando a democracia para segundo ou terceiro plano. Não sei mesmo se ele sabe o que é democracia já que age de acordo com a sua “moralidade”, seja ela qual for e, os seus interesses pessoais. Por quanto tempo vai querer subjugar a Venezuela? E o que vai dizer a Corina Machado, a quem já tinha dito que não recolhia a aceitação dos venezuelanos? Vai continuar a deixar Delcy Rodriguez a governar do mesmo modo que o fazia Maduro? Nada muda? Claro que não. Não interessa a Trump mudar a política, interessa-lhe o domínio do petróleo para o poder vender a quem lhe interessar, menos à China e à Rússia. Golpe de mestre! Que outro modo poderia haver de dar uma machadada nestes rivais? A China tem levado cerca de 70 a 80% do petróleo da Venezuela e a Rússia 20% e Cuba dependia igualmente do que a Venezuela lhe fornecia. Tudo vai mudar.

Na realidade, o assalto de Trump em Caracas foi um golpe económico tremendo e um modo de, indiretamente, dominar a China e a Rússia que agora estão numa posição de dependência.

Mas nem tudo corre bem a Trump. Não pode controlar tudo e internamente tudo se vai desmoronando politicamente. O recente caso do assassinato de Renee Nicole Good, de 37 anos por um agente da polícia de imigração, nos arredores de Washington, está a gerar uma onda de manifestações enormes por toda a América e a acusar Trump de uma política fascista. O governo alega legítima defesa e J D Vance disse que ela era uma ativista de esquerda. Francamente. As desculpas vão ser muitas para justificar o que não é justificável. Será que ninguém terá coragem de assaltar a casa de Trump e deste pateta chamado J D Vance? Dava jeito.



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