Luis Ferreira

Luis Ferreira

A ambição e a Realidade

Fomos todos apanhados quase de surpresa pela pressa com que os EUA, mais propriamente Donald Trump, apresentou um Plano para a paz entre a Rússia e a Ucrânia e, mais surpreendidos ainda, com o timing para a sua aceitação por parte de Zelensky.

A notícia soou como um despertador na cabeça dos europeus a avisar que o tempo era de decisões rápidas, quase sem pensar, como se os vinte e oito pontos apresentados fossem de aceitação assim tão fácil. Trump tem urgência em se livrar deste impasse e sair bem na fotografia. Sempre subserviente a Putin, queria agradar e vangloriar-se de mais uma vitória política. A este nível, Putin não se importaria de ser ultrapassado, pois iria receber de mão beijada e sem grande esforço, o que sempre quis e para o que tem lutado ao longo de todo este tempo de guerra. Mas a ambição tem limites.

Perante as exigências referidas nos pontos a aceitar pela Ucrânia, seria de esperar que Zelensky retorquisse e chamasse para o aconselhar, os países europeus que o estão a ajudar e que não estão dispostos a aceitar tais condições. Seria uma rendição incondicional de um país soberano que nada fez para iniciar esta guerra e submeter-se às exigências do invasor tirano que nada mais quer do que continuar a guerra. Uma vergonha.

Mas tudo isto teve o condão de acordar repentinamente a Europa. As reuniões multiplicaram-se assim como a discussão dos pontos apresentados por Trump. Aliás, é opinião unânime que os pontos do suposto Plano de paz têm origem no Kremlin, o que vem dar razão à teoria de que Putin não se importaria nada de perder os louros para o presidente americano. Claro, as suas pretensões são óbvias e conhecidas. Moscovo disse inicialmente que não tinha recebido nenhum acordo para discutir, o que justifica a teoria. Contudo, dois dias depois, um representante de Moscovo veio dizer que teve conhecimento desse documento, mas que nada mudava nos objetivos do Kremlin. Não se podia denunciar! Como se sabe, houve encontros entre os representantes de ambas as partes, para cozinhar o documento nas costas dos ucranianos.

A pressa de Zelensky é óbvia e justificada. Ele quer paz, mas quer que o invasor também seja castigado. Mas como? Não quer ceder território, o que é justificável, pois o direito internacional não o permite a uma nação soberana. As fronteiras não são para alterar pela força. Há regras que Putin não quer cumprir. Mas a realidade é diferente do que ele quer.

Os países da EU reuniram, discutiram e alteraram os pontos apresentados e apresentaram uma contraproposta. Isto não agradou a Trump, mas pelo menos levou a que viessem a terreiro dizer que o acordo de paz estava no bom caminho. De vinte e oito, os pontos já reduziram para dezanove, mas o que dizem ou impõem, pouco se sabe. Tudo está em discussão. A contraproposta europeia pode dar alguma esperança à Ucrânia, mas não servirá a Putin certamente. O único trunfo da Europa é possuir os ativos russos e poder utilizá-los contra a própria Rússia e em defesa da Ucrânia.

A Inglaterra, a França e a Alemanha essencialmente, já se pronunciaram no sentido de não permitir a cedência de território, redução de efetivos militares do exército ucraniano e mais uns pontos cruciais que a Rússia quer banir da sociedade ucraniana. Mas que poder tem Putin para interferir na sociedade de outro país ou exigir a mudança de língua oficial ou religião? Só o poder das armas não lho permite. É imoral. Sabemos que para Putin a moral pouco conta. Os milhares de soldados já mortos nada lhe dizem, pois foram carne para canhão e continuarão a ser, nesta guerra incoerente e inadmissível.

Pode ser que a sorte sorria a Zelensky e consiga um acordo de paz menos doloroso perante o tirano russo e o louco americano, a que ele chama aliado. Destes aliados, poucos precisam, no entanto, a possibilidade de uma paz perante a desgraça da guerra que não pediu, é um desejo enorme. Neste momento, tanto Putin como Zelensky, encontram pontos positivos neste Plano, mas chegará? É uma ambição honesta, mas a realidade pode ser diferente.

Toda a movimentação dos países europeus e não só, perante os pontos em discussão, mostra bem o apoio que a Ucrânia está a receber, contudo, isto é apressado e pouco aceitável aos olhos de Putin que nada tem ligado à Europa a quem chama de belicista. Curioso! Mas a pressão é enorme e a verdade é que tudo está em aberto e a paz ainda está distante. Para Moscovo, tudo isto é um jogo de interesses, uma brincadeira que joga a seu bel prazer, enrolando Trump como quer e fazendo com que ele se movimente em seu lugar. Putin não precisa de sair do seu trono. Mas atenção, a ambição matou o gato. A Rússia atravessa uma crise económica enorme e o dinheiro para continuar a sustentar esta guerra já é pouco. Está a colapsar. Quanto mais depressa a guerra acabar, melhor. Sairia de cara lavada, mas a que preço? Aí está o ponto crucial. Perder não é palavra do seu vocabulário. Mas também Zelensky não quer perder tudo. Também quer sair de cara lavada. Será possível? E Trump? Só tem a ganhar as terras raras neste negócio de troca de territórios. Afinal, é tudo uma questão de dinheiro e a esperança de ser proposto para Nobel da Paz no ano que vem!

Mas não se preocupem. Amanhã, quando acordarmos, nada disto será verdade! Tudo terá mudado e o Plano será outro completamente diferente.



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