Luis Ferreira

Luis Ferreira

Afinal como surgimos?

Em tempo de férias e onde o tempo livre não deve ser ocupado com mais guerras e tentativas de paz completamente falhadas, cabe talvez um momento de mais lazer e distração, ocupando a mente em assuntos interessantes, mas menos stressantes. Falemos de ciência e do homem.

A História tem-nos ensinado que o homem surgiu na Terra há uns milhares de anos, sendo antecedido por uma evolução assente numa seleção natural, que segundo Darwin, foi aprimorando o ser humano até como hoje o conhecemos.

Ao longo dos anos, várias descobertas têm alterado o conhecimento sobre o desenvolvimento do homem e até, onde surgiram os primeiros hominídeos. Ossadas encontradas em várias escavações em diversos locais, desde África à Ásia, têm lançado um pouco de confusão no que aparentemente já eram certezas. Afinal o homem surgiu a partir do desenvolvimento dos símios, a partir dos primeiros vertebrados marinhos ou de uma outra forma ainda desconhecida? Em termos científicos, claro que pomos em outro patamar a explicação bíblica.

Assim, o surgimento de vida no nosso planeta, prende-se sempre com a possibilidade de haver oxigénio, sem o qual a vida, como a concebemos, não poderia existir. Resta explicar como e quando isso foi possível. 

De acordo com a ciência, até há cerca de 1,7 mil milhões de anos a atmosfera terrestre tinha muito pouco oxigénio, mas os níveis de gás aumentaram muitíssimo durante o período conhecido como o Grande Evento de Oxidação, tendo surgido algumas centenas de milhares de anos mais tarde, os primeiros microfósseis de eucariotas conhecidos. Isto indica que a presença de oxigénio pode ter sido importante para a origem da vida complexa. 

A mais recente descoberta da equipa de Baker, que investiga genomas de arqueias Asgard, descobrindo novas linhagens, expandindo a diversidade enzimática e explorando as suas vias metabólicas, dá credibilidade à ideia de que a vida complexa evoluiu como a teoria previa e aparentemente num ambiente rico em oxigénio.

Deste modo, alguns dos Asgardianos, que são os nossos antepassados, serem capazes de usar oxigénio, encaixa perfeitamente nessa teoria, segundo afirma Baker. O oxigénio apareceu no ambiente e os Asgardianos adaptaram-se a ele. Descobriram uma vantagem energética na utilização de oxigénio e, então, evoluíram para eucariotas.

Para os cientistas, os eucariotas surgiram quando uma arqueia Asgardiana desenvolveu uma relação simbiótica com uma alfaproteobactéria e esta terá evoluído, tornando-se uma “organela” produtora de energia dentro dos eucariotas, chamada mitocôndria.

A cientista Kathryn Appler, investigadora no Instituto Pasteur, em Paris, destaca o enorme esforço de sequenciação e a sobreposição de métodos de sequenciação e estruturais, realizados pelos cientistas, que permitiram ver padrões que não eram visíveis antes desta expansão genómica.

Toda esta investigação resulta do trabalho de doutoramento de Apller no Instituto de Ciências Marinhas da Universidade do Texas, que começou com a extração de ADN de sedimentos marinhos em 2019. A equipa da Universidade do Texas reuniu mais de 13 mil novos genomas microbianos, tendo conseguido centenas de novos genomas de Asgard e quase duplicando a diversidade genética do grupo que era então conhecido.

Com base em semelhanças e diferenças, os cientistas construíram uma árvore de vida alargada das arqueias de Asgard, tendo os novos genomas permitido descobrir novos grupos de proteínas, duplicando o número de classes enzimáticas conhecidas.

Não é despiciendo dizer que neste complicado estudo, estão também incluídos os trabalhos de investigadores portugueses, como Pedro Leão, da Universidade de Radboud.

Em tempo de férias, mesmo falar de coisas sérias e quase desconhecidas, também pode ser pouco agradável, mas a ciência tem destas coisas. Descobri que a nossa proveniência é muito mais longínqua do que imaginava e muito mais complexa. E assim se passa o tempo!

Afinal, surgimos porque o oxigénio era imprescindível num ambiente difícil e confuso, onde só os microrganismos poderiam evoluir. Assim, somos Asgardianos, seja lá isso o que for!




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