Luis Ferreira

Luis Ferreira

A Catástrofe

A irreverência do tempo e dos homens não nos deixa perceber com clareza as mudanças tremendas a que estamos sujeitos com o virar dos anos. Dependentes do que o tempo nos dá e da ação interventiva do homem, completamente desmesurada e dominada por objetivos essencialmente económicos, comprometemos o futuro da humanidade sem quase dar por isso.

Há alguns dias que estamos afastados de notícias relacionadas com a guerra da Ucrânia e do comportamento de Putin ou de Netanyahu ou até de Trump devido à intervenção da Kristin, do Leonardo e da Marta. Não foram convidados e, talvez por isso mesmo, trouxeram toda a raiva subjacente ao desprezo que lhes foi inicialmente atribuído.

Habituados a que este tipo de fenómenos acontecesse só na América, no Pacífico ou na Ásia, limitávamo-nos a comentar o acontecido e a lamentar as consequências com o pesar evidente face às tremendas perdas materiais e humanas. Longe estávamos de que a nós, longe de tudo e de todos, pudéssemos vivenciar tamanhas catástrofes. Nem o anticiclone dos Açores nos salvou.

Por aqui já tinham passado alguns ventos fortes e até mesmo furacões e trombas de água, o que já não era normal face ao histórico nacional. Para além das cheias dos rios principais e das inundações que elas provocavam e que as populações já estavam habituadas, nada mais forte nos parecia ameaçar. Engano nosso.

Talvez enganados pela subtileza do nome feminino, fomos levados a minimizar o que a Kristin nos poderia trazer. Foi o feminino do terror e da catástrofe. Todos assistimos ao que a depressão Krintin fez no centro e sul do país, especialmente em Leiria, Coimbra e Alcácer-do-Sal. A destruição de casas, de colheitas, de ruas, de comércios, de carros e a morte de pessoas indefesas, foram consequências de que não estávamos à espera. A violência feminina ajudada por mão masculina, um tal Leonardo, que desconhecíamos e complementada por outra feminina, Marta, em princípio mais meiga, formaram uma trilogia catastrófica que tão depressa não vamos esquecer certamente.

A reação demorou, talvez pelo inesperado do acontecimento, mas foi o mais eficaz possível. Movimentaram-se todas as forças de proteção civil, militares, médicas e a sociedade civil, para combater tão danoso ataque ao povo português. O Governo agiu dentro do possível face a estas condições desastrosas e disponibilizou meios de ajuda de várias vertentes para obviar às perdas efetivas de quem quase tudo perdeu de uma hora para a outra.

Quinze vítimas foram contabilizadas nesta tragédia. As vidas não se recuperam, mas os bens vão ser objeto de análise e recuperação. Contudo, vai ser longo esse processo. Por agora remenda-se o imediato, como telhados, usando lonas e encerados. Mas as telhas não chegam para todos e as indústrias que as fabricam foram igualmente atingidas e não funcionam. Vão ser tempo de espera e desespero.

E o país também sofreu nas suas infraestruturas. Ruas destruídas, estradas intransitáveis, inoperacionalidade da rede elétrica, escolas fechadas, alunos sem aulas, rede ferroviária irregular e cortada em alguns troços, enfim, um sem número de episódios terríveis que todos temos de viver sem que estivéssemos preparados.

Os invernos rigorosos já não faziam parte do nosso quotidiano. Pouca chuva e pouca neve, vento leve e umas geadas frívolas, eram a ementa que nos apresentavam há alguns anos. Ilusão e acomodamento arredaram a possibilidade de voltarem os invernos mais severos, mas eles aí estão. Infelizmente, vieram acompanhados por quem não deviam. Não precisávamos da Kristin, do Leonardo e da Marta para ajudar à festa. E se alguma mais estiver a preparar-se, é bom que se afaste de nós, pois para desgraça já chega a que ficou!

Em ocasiões de desgraça alheia, Portugal é dos primeiros a ajudar e a reunir o que pode para enviar para os locais de catástrofe. E agora que somos nós a sofrer na pele esse desiderato, quem nos vem ajudar? Quais são os países que se prontificaram a enviar ajudas? Desconhecemos.

Prante esta catástrofe, Portugal deve estar mais bem preparado para enfrentar outra possível arremetida, feminina ou masculina, deste teor. Aprende-se com a experiência e a necessidade. Desde a Proteção Civil às Forças Armadas, todos estarão de prevenção e suficientemente preparados para travar estes desvarios do tempo. Se a guerra se combate no terreno e se conhece o inimigo, neste tipo de catástrofes somente desconfiamos das armas e da força do inimigo que até pode ser enganadoramente meiga, qual Kristin ou Marta.

Para complicar toda esta panóplia de acontecimentos, a Ministra da Administração Interna demitiu-se. Inabilidade e fraqueza nas atuações e toda a complexidade deste Ministério, acabou por fazer mais uma baixa. Será talvez o início de uma reformulação do executivo.

Com um novo Presidente da República eleito, o futuro avizinha-se demasiado negro. Para Marcelo foi a despedida que não esperava certamente. Uma catástrofe!



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