Luis Ferreira

Luis Ferreira

A Faixa dos loucos

As crianças juntaram-se e celebraram o silêncio no meio de escombros, gritando a liberdade de se poderem reunir e festejar. Festejavam o que diziam ser o cessar fogo sem ter a noção verdadeira do que isso poderia significar, mas sabiam que já não ouviam nem tiros nem aviões ameaçadores a sobrevoarem o espaço, deixando cair bombas que tudo destruíam à sua volta.

Vista do alto, a Faixa de Gaza, parece um caos onde nada se aproveita e onde nada parece ter vida. É uma realidade triste, horrenda e impensável existir nos tempos modernos, mas existe graças aos loucos deste mundo. Loucos, porque a loucura não tem sentido nem justifica as ações de quem pratica atos desta natureza. Nada justifica o que se passou e passa em Gaza. E a retaliação ou vingança do sete de outubro nunca poderia ter ido tão longe. Quase setenta mil mortos e muitos desaparecidos, nunca poderiam ser o corolário de vitória de Israel sobre um grupo de terroristas.

Quarenta quilómetros de terra ao longo do mar com uma dúzia de quilómetros de largura, parece coisa pouca e na verdade não é grande coisa, mas é a morada de poucos milhões de pessoas a quem teimam em retirar a nacionalidade e a pátria para lá fazerem nem se sabe bem o quê, pois desde uma Riviera esplendorosa a exemplo da francesa, até anexar tudo num só país com o objetivo de acabar com as ameaças terroristas, tudo vale a pena desde que não se pense em fazer dois Estados independentes ou criar uma verdadeira Palestina. Terra pequena onde grandes loucos querem fazer grandes loucuras. Farão?

Não é de agora toda esta azáfama no Médio Oriente, especialmente na Palestina. É um conflito com raízes de mais de três mil anos. Talvez nunca tenha sido um território muito cobiçado, mas teve demasiados conflitos entre alguns povos da região. A população também nunca foi muita, alguns milhões somente, mas o Mediterrâneo era uma atração muito forte. Ponto de chegada e de partida importante para o comércio, bom clima e grande desenvolvimento. Os Romanos já sabiam disso e aproveitaram o melhor que puderam.

O nascimento do Messias veio alterar tudo. A cobiça, o poder, a inveja e o confronto de religiões, trouxe a incerteza, a rebelião e as perseguições. Mas o Cristianismo afirmou-se e até os Romanos acabaram por se cristianizar, acabando com o seu politeísmo ancestral. Mas a verdade é que até hoje, a região nunca mais teve paz. Depois da segunda guerra mundial e da atribuição do território a Israel para aí fundar a sua pátria, retirando ao povo palestiniano a importância que sempre teve, acabou-se por dificultar todo o processo que se queria fácil e resoluto. Não, não foi o que aconteceu. Tudo se complicou, talvez porque os judeus dispersos e perseguidos, precisavam de um território a que chamassem seu e de uma pátria que tinha desaparecido na poeira dos tempos.

Assim, hoje e perante um acordo que parecia correr contra o tempo, chegou-se a um cessar fogo débil, que deu esperanças aos palestinianos, mas incertezas ao Hamas e a outros grupos como a Jihad islâmica ou a Fatah, que, em desacordo, parece não se entenderem com o acordo. No meio de tudo isto estão os reféns que irão ser libertados, vivos e mortos, a troco de alguns prisioneiros condenados até a prisão perpétua que, de outro modo, não teriam liberdade tão depressa. Assim será!

Os pontos do acordo apresentado por Trump com a esperança de ainda conseguir o Nobel da Paz, (santa inocência!) não obtêm a concordância de todos os intervenientes no processo de paz já que a desmilitarização do Hamas será demasiado difícil, se não quase impossível. As ameaças de Trump ao Hamas sobre este ponto, não parecem funcionar, já que seria o suicídio do grupo terrorista. Não há terroristas sem armas! Destruir Gaza City será a loucura subjacente a tal negação. Também um governo interino em Gaza, constituído por representantes de outros países, não colhe aceitação por nenhum dos grupos. Enfim, tudo continua à beira do abismo.

A Faixa de Gaza, completamente destruída pelas loucuras de Israel e dos EUA, demorará muito tempo a ser reconstruída e os palestinianos demasiado tempo a ter um lar onde abrigar as suas crianças e os seus sonhos. Uma vida louca causada pela loucura dos que governam ou têm interesses nesta Faixa à beira do Mediterrâneo. Mas a suposta Palestina, não é só esta faixa de território, já que existe a Cisjordânia e uma suposta Autoridade Palestiniana que não tem autoridade nenhuma. Como fazer a junção? Aqui, as promessas de Trump talvez resultem e metam medo a Netanyahu. O tempo dirá. É bom que acabe a loucura e se dê descanso e paz aos palestinianos. Já chega de destruição e morte. Entendam que o Hamas nunca acabará. Eles são parte do povo palestiniano, eternos inimigos de Israel. Até onde irá ser cumprido este acordo de cessar fogo? A loucura que a todos acomete, é tempo de acabar. Esperemos que a paz sobrevenha.



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