Manuel Igreja

Manuel Igreja

O Douro antes, agora e depois

O Douro que é nosso, mas é cada vez de mais gente, é onde a natureza se excede, o homem se suplanta, onde a incerteza se implanta a par das plantas que se plantam e onde os néctares se cuidam para que encantem porta adentro e mundo afora.

Sabemos o que foi, mais ou menos sabemos o que é, mas não sabemos para onde vai e o que será. Obviamente que todos lhe almejamos o melhor porque o merece e porque fazemos parte da sua multiplicidade integrada feita unidade, pilar de inequívoca identidade.
O vinho e o rio estão-lhe no âmago. Desde que o tempo é tempo que as videiras medram aconchegas pelo xisto com os seus cachos feitos fruta esmagada e fermentada para que o vinho se faça por si mesmo com a ajuda e com o saber dos homens.

Passando pelos romanos e pelos monges de Cister, que foram granjeando E alarando vinhas, fomos dar ao tratado lavrado em 1703 com os ingleses e a mais a demarcação exarada pelo marquês de Pombal. Hoje em dia, nos socalcos que antes eram matagais, cultivam-se em 43mil hectares, 300 mil pipas de vinho.

Não será bem um mar de terra plantada de vinha como noutras partes do mundo, mas convenhamos é uma dimensão de meter respeito e bem capaz de proporcionar bom proveito. Se o proporciona ou não, e sabemos que não pelo menos como se impõe, isso é vinho de outra pipa, como costuma dizer-se entre nós.

Se me permitem, é aqui que passarei a bater no casco do tonel para aferir o nível e se for capaz, tentar encontrar a causa das coisas colocando-me a partir da página em que surge o tratado de Methuen em que se exarou o privilégio de os ingleses nos virem escoar o vasilhame para se deliciarem com as nossas pingas que até fariam ressuscitar mortos caso estes mantivessem o palato sempre vivo.

Nada tardou que exarado e perpetrado o acordo, o negócio se expandisse em quantidade, em qualidade e em proveitos financeiros e aduaneiros. Os vinhos do Douro viraram riqueza nacional e engordaram e bem as contas bancárias de uns poucos, infelizmente graças ao escravo trabalho de muitos que mourejavam e mourejam por entre os bardos multicolores e abrasadores.

Paradoxalmente havia muita riqueza, mas também muita pobreza. Os proveitos deram para tudo e mais alguma coisa, mas não deram para alimentar quem andava a cavar. Falar de crise no Douro sempre foi quase tão comum como pisar as uvas no lagar.

Em todo o caso, para alguns era fácil ter e viver. Não indo aos maiores e ficando-me pelos médios, diz-nos a memória que bastava herdar meia dúzia de hectares de vinha, e já dava para vida de quase lorde. O pessoal trabalhava, o caseiro orientava e orientava-se se o deixassem, e o dono aproveitava-se permitindo-se o privilegiado lazer.

Durante décadas o Douro foi comodismo e pachorra sonolenta que tardou a acabar. Os que se deviam preocupar não se preocupavam. O negócio dava para o sustento sem grande constrangimento. Por isso, já outras regiões de vinho se haviam organizado e modificado rumo ao futuro e ainda o Douro se acomodava com o exclusivo vinho generoso. O resto, eram sobras.
No entanto como a necessidade faz o engenho, acordou e suplantou. Pelos nos 90 do século XX deitou mãos à obra e fez vinho tranquilo, como se diz, para se servir à mesa. Espantou e ultrapassou tudo e todos. A qualidade sendo excelente, permitiu acrescentar valor, mesmo não havendo organização de classe. Uns poucos tomaram a dianteira e os outros foram na pegada.

Ao costume, o registo é cada um por si e cada qual a jurar que o melhor vinho do mundo está na sua adega. Antes dizia-se armazém, mas convém alguma modernidade no modo de se dizer, nestes dias de hoje que continuam a ser de crise. Uns dizem que perdem dinheiro, outros dizem que vai dando para o gasto, e outros nada dizem, mas a gente sabe.
Eu que nada sei, só me atrevo a recomendar que tenham juízo e que se cuidem em conjunto pois o futuro é já daqui a instantes e desenha-se um vendaval quase igual ao da filoxera. Não irá tudo para o maneta, mas urgem as amarras que sustentem a tenda na permanente contenda entre as regiões do mundo em que os vinhedos medram.

Não temos dimensão, mas temos qualidade de pedir meças seja a quem for e temos o coração firme e todo colocado nas videiras. A cabeça e a vontade não negam as canseiras, e o saber fazer é o que mais temos. Quando muito falta alguma lucidez, se calhar porque não temos dúvidas.

Mas quem foi capaz de desbravar silvados, de britar pedregulhos, de virar ao contrário terra e mais terra para faze chão de videiras, também é capaz de enfrentar e construir uma realidade nova mantendo uma paisagem evolutiva e viva, mesmo que se alterem algumas circunstâncias.

Se soubermos e se quisermos, nesta beleza de terra, haverá sempre que dela cuide e quem a cante. Os nossos antepassados assim querem, e os nossos filhos assim merecem.
Basta vermos a quantidade de raparigas com ar resoluto e urbano que guiam as camionetas carregadas de uvas a caminho das adegas, para concluirmos que a paixão impele e o amor perdura. Quanto a mim esta visão é significativa, pois sendo disruptiva num certo sentido, é essencialmente esperançosa.

No Alto Douro vinhateiro, o antes já foi, o agora está a ser e depois nada tarde. Quando dermos por ela veremos de novo pintor e teremos outra vez vindimas. Temos é de nos organizar pois as coisas não estão para amadores.


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