Manuel Igreja

Manuel Igreja

O boneco de neve

Se a vida fosse um colar de missangas, as recordações seriam o fio que as uniria e lhes dariam a forma definida que leva à beleza que nos encanta os olhos.

Seriam elas que nos permitiriam exibir de nós e em nós aquilo que somos em plena essência para nos identificarmos e sermos identificados.

No alfobre das minhas plantas efetivas e afetivas, vão despontando de oras em quando aquelas que me fazem saber de onde venho, onde estou e para onde quero ir, apesar de todos os temores e todas as dúvidas acerca das coisas o mundo ao virar de cada esquina.

Entre elas, está um boneco de neve. É verdade. Foi feito para durar coisa de uma semana no inverno de mil novecentos e sessenta e sete. Parece que foi há muito, mas foi ontem, quando eu ainda nem sabia desenhar letras para juntando-as formar palavras.

Naqueles invernos, era raro o ano em que não nevasse. Umas vezes com maior intensidade, outras com menor, mas o acordar e ver tudo pintado de branco, era encantadoramente normal, pelo menos para quem não tinha ainda de se preocupar com o pão para se por na mesa e mais os apeguilhos para já nem ir aos condoitos.

Foi o Mudo que Deus cuide, quem o fez. Nesse tempo ele era já moço feito já pronto para ir aos cestos na vindima, mas eu ainda era petiz ainda de andar com o cú das calças rachado para as imediatas precisões como era uso e se bem me entendem.

Como sempre, neve pegada no solo era sinónimo de brincadeiras e entreténs para preencher o tempo apesar de as alternativas não serem muitas. Colocar ratoeiras cobertas com neve e só com um isco de feito de migalhas de pão para prender pardais era um deles.

Punha-se uma pessoa à coca, e quando se ouvisse o estalo era só ir buscar a incauta vítima para fazer um belo petisco frito. Na eterna atividade de se caçar para se comer, no fundo esta era também uma maneira. Seria brincadeira, mas era também canseira, numa época em que a fartura era mais de fome do que de substância à escolha.

Mas indo ao boneco de neve antes que derreta na imaginação. Naquele ano o nevão foi de espantar e muito para cima do costume. A neve formou uma cobertura de palmos suficientes para ter havido a necessidade de se abrirem trincheiras para se circular.

Mais parecia que ali tinha estado desde sempre e que tudo se construiu sob a sua condição. Como havia pouco ou nada para se fazer, o Mudo qual escultor com escola de arte, construiu um boneco onde não faltou pontiagudo nariz e espalhafatoso chapéu ainda que esfarrapado de ser pobre e todo roto como é timbre.

Ficou bonito o dianho do boneco. Esteve ali semanas e não sei se teria ganho vida própria. Pelo menos que mexia a cabeça, era eu quase capaz de jurar, mas isso pode ter sido dos meus olhos. Não sei. Cá por coisas nunca disse isto antes, mas que mexia, lá isso mexia.

Não acreditam, bem sei. Mas se calhar o Mudo meteu nele todos os seus silêncios e porque as pausas também são música, como bem sabemos, ficou um espanto digno de ser visto. Conteria nele todos os sonhos das vidas de quem é poeta sem que o saiba. Não sei.

O que sei, é que quando vou de carro dar a volta no largo onde o Mudo lhe deu forma, há alturas em que ainda o vejo mesmo sem que haja nevão em redor. Já perguntei ao Mudo, e ele no seu modo de falar que só alguns entendem, também me garante que o via mexer-se.

Ele há cada coisa!


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