Ana Soares

Ana Soares

Há um Natal antes, há um Natal depois… E está tudo certo, em nome do Amor

Relembro os Natais que vivia sem pensar. O Natal da magia, onde tudo aparecia sempre feito, com muito amor e como se fosse fruto do brilho da época: as músicas a tocar na sala quentinha, a mesa posta, os presentes debaixo da árvore, aquela roupa especial para vestir na noite de consoada… um Natal onde era filha, criança ou adulta, e que não era apenas a época mais especial do ano, era um lugar único.

Há uns meses, um amigo que muito estimo disse-me que a primeira vez que se sentiu verdadeiramente adulto não foi quando casou nem teve filhos, foi quando soube que a mãe estava doente. Como o compreendo.

Há um antes e depois da morte dos nossos pais e essa diferença sente-se de modo particular no Natal. Ninguém nos prepara para isto e é preciso que percebamos que não há problema em falar desta dor que magoa a cada telintar da gambiarra de Natal, no vazio que permanece entre as gargalhadas e sorrisos dados na mesa da ceia de Natal. O luto não tem tempo. Dizem que o tempo cura tudo, mas não é verdade, apenas transforma. A saudade e a ausência não têm prazo e se o sentimos a cada dia, como uma fronteira silenciosa que se torna abissal, no Natal é particularmente barulhenta, ensurdecedora. É o silêncio que grita no coração quando ouvimos uma música, quando retiramos dos arrumos “aquele” enfeite, quando fazemos a árvore de Natal. É um silêncio que não é de som, é de vazio profundo.

Claro que somos adultos, pais, maridos e esposas, anfitriões da noite de Natal, mas não deixamos de ser filhos de pais que não estão. E não é dependência exagerada, é pertença. É amor. É saudade. É saber que até podia haver mil desentendimento, discussões ou opiniões diferentes mas que no momento - naquele momento em que temos medo de assumir o que queremos e que vamos cortar com as expectativas do mundo - alguém estava lá, sempre, alguém que nos conhecia desde o primeiro choro e cujo apoio era incondicional até ao último suspiro. E falarmos sobre isto, falarmos sobre o que sentimos não estraga o Natal, humaniza-o, torna-o inteiro e verdadeiro.

Claro que continuamos a viver o Natal: a delirar com os elfos, a criar novas tradições, a celebrar os costumes ancestrais, a escolher os presentes, a antecipar os sorrisos… Natal também é mostrarmos - pelo que organizamos, pelo que transmitimos, pelo que criamos - o amor que sentimos por quem está perto, sem esquecer os que não estando, continuam a estar. É, aliás, desta forma que continuamos a revivê-los, a passar às novas gerações os valores que eles nos passaram a nós.

E eis que surge mais um milagre de Natal: acomodar a dor e viver a felicidade destes dias, transformar a ausência nos pequenos detalhes que fazem a diferença a quem está presente, transformar a saudade em sementes de futuro. Porque quem criou as nossas memórias pode não estar presente, mas está em nós. Porque escolher celebrar e criar momentos especiais para os nossos é também optar continuar o que nos ensinaram: cuidar, estar presente, fazer de cada Natal um momento de amor.

Desejo a todos um feliz e Santo Natal repleto de amor, compreensão e saúde, para com os outros e para connosco próprios. Que honremos quem já partiu e sejamos paz e alegria para quem está connosco.



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