Desfile dos Caretos e Queima do Mascareto cancelados: os motivos do desacordo
O cancelamento do Desfile dos Caretos e da Queima do Mascareto, previstos para amanhã, foi justificado pela Câmara Municipal com base em “previsões meteorológicas adversas, indicadas pelas entidades oficiais, com antecipação de chuva intensa para o fim de semana”, invocando razões de segurança. À primeira vista, a decisão pode parecer prudente, mas uma análise mais atenta levanta sérias dúvidas quanto à sua razoabilidade e proporcionalidade.
Desde logo, importa recordar que, com uma semana de antecedência – altura em que os eventos foram cancelados -, as previsões meteorológicas disponíveis apontavam maioritariamente para um cenário distinto daquele que veio a ser invocado como fundamento para o cancelamento. Modelos consultados — nacionais e internacionais — indicavam, nessa altura, precipitação fraca ou moderada e concentrada em períodos específicos, longe do cenário alegado para justificar a decisão. É certo que as previsões meteorológicas não são ciência exata, sobretudo com vários dias de antecedência, mas também é verdade que nenhuma delas sustentava um cenário meteorológico extremo.
Aliás, já era conhecido que, a partir de hoje, sexta-feira, se iniciaria a entrada de uma nova frente. As previsões apontavam para um regime pós-frontal, caracterizado por aguaceiros dispersos, intercalados com abertas. Um cenário típico da estação, longe de ser excecional ou imprevisível.
O Carnaval é um evento de inverno. Historicamente sempre conviveu com frio, chuva, vento e instabilidade atmosférica. Exigir condições meteorológicas quase primaveris para a realização de um desfile carnavalesco ao ar livre em Bragança é desvirtuar a própria natureza do evento. Se assim fosse, grande parte das celebrações tradicionais do norte do país jamais se realizariam.
Mas o impacto desta decisão vai muito além da discussão meteorológica. O cancelamento do desfile representa um prejuízo económico significativo para o comércio local, para a restauração, hotelaria, artesãos, associações culturais e pequenos produtores que se preparam, com semanas de antecedência, para acolher visitantes e dinamizar a economia local. Num território do interior, onde cada evento conta e onde a sazonalidade turística é uma realidade, decisões desta natureza têm efeitos concretos e imediatos. Este facto ganha ainda particular importância quando se sobrevaloriza o gasto que o Município teria em detrimento da injecção de dinheiro que existiria na economia local.
Há também um impacto cultural que não pode ser ignorado. O Desfile de Caretos e a Queima do Mascareto não são meros eventos recreativos: são expressões identitárias profundas, ligadas à tradição, à memória coletiva e à afirmação cultural de Bragança e de toda a região. Cancelá-los com base em previsões voláteis é fragilizar o trabalho contínuo de preservação e valorização do património imaterial, bem como o empenho das associações e grupos que mantêm viva esta herança.
Por fim, importa falar das famílias. Para muitas, este desfile é um momento de encontro, de participação intergeracional e de criação de memórias. Crianças que se preparam com os seus fatos, pais e avós que as acompanham, famílias que se deslocam ao centro da cidade para celebrar em conjunto. Cancelar um evento desta dimensão é também retirar à comunidade um momento de alegria, de pertença e de partilha.
É evidente que a segurança deve ser sempre uma prioridade, mas assistimos recentemente a fenómenos atmosféricos extremos em que as decisões municipais foram tomadas com muito menos antecedência e de forma menos extrema. Segurança não pode ser confundida nem usada como argumento genérico, sem dados concretos que a sustentem, para cancelar, com grande antecedência, um evento de enorme relevância cultural, turística e identitária para a região. Existiam alternativas: reforço de meios, ajustes logísticos, planos de contingência ou, no limite, decisões tomadas mais próximas da data, com base em previsões mais fiáveis. Podia até ser cancelado algum evento em que o vento pudesse, por exemplo, ter maior impacto ou mudá-lo de local, mas cancelar desta forma só beneficiará concelhos vizinhos, pois certamente os brigantinos não deixarão de festejar o Carnaval.
E não se compare a situação de Bragança com a situação de outros concelhos onde, ou infelizmente as recentes tempestades deixaram as localidades em estado de sítio ou onde a proximidade ribeirinha e a saturação dos solos coloca, aí sim, as autoridades em situação de alerta. Por cá, nenhuma destas situações se verifica, felizmente.
Cancelar um evento desta dimensão sem se verificar previsão meteorológica que importe realmente a impossibilidade de realizar um cortejo ao ar livre transmite uma mensagem preocupante: a de que, perante a incerteza — que é inerente ao inverno —se opta pelo caminho mais fácil, em detrimento da cultura, da tradição e da confiança da comunidade. Carnaval sempre será uma celebração de inverno!
Importa referir ainda que fiz questão de apenas hoje publicar esta crónica para perceber, na reunião de câmara desta manhã, se havia algum dado que desconhecesse. Pelo contrário, ficou factualmente claro que as minhas reservas e discórdia quanto aos cancelamentos tinham fundamento.
O Carnaval de Bragança merece mais do que decisões tomadas por impulso. Merece bom senso, coragem e respeito pela sua história e pelas pessoas que lhe dão vida.