Ana Soares

Ana Soares

A democracia não exige declaração de voto

A pouco mais de duas semanas da segunda volta das eleições presidenciais, somos confrontados com uma escolha clara: António José Seguro ou André Ventura. Diria que são duas personalidades com tantos pontos divergentes - alguns deles diametralmente opostos até - que todos os que somos chamados às urnas poucas dúvidas podemos ter sobre o modelo de presidência que cada um representa.

O que me leva a escrever esta crónica é a tendência instalada nos últimos dias antes da primeira volta das eleições e que claramente se tem multiplicado desde então. Talvez o defeito seja meu, pois tenho alguma dificuldade em perceber como a realidade é mudada em nome do que é mais consensual, como os comportamentos se moldam em torno do politicamente correto, mas não posso deixar de dar a minha opinião sobre o assunto.

O voto é secreto. É claro que sempre houve demonstrações de apoio - e muito bem - seja com presença em ações de campanha, em declarações públicas ou com artigos de opinião. Cada um sempre foi livre de revelar - ou não - o seu apoio a um determinado candidato, cada qual sempre pôde gerir a sua envolvência na campanha como bem entendeu. O que se passa hoje é diferente. Espera-se uma posição pública de “todos os democratas” em torno de uma candidatura e olha-se com desconfiança para quem não o faz o que - com toda a frontalidade - me parece uma ação digna dos regimes extremistas e nada democráticos. Ver consecutivamente esta pergunta ser colocada aos mais diversos intervenientes políticos – e até fora da espera política – parece-me algo inconcebível.

Escrevo sobre este tema com total à vontade de quem, com os mais próximos, partilhou o sentido de voto na primeira volta das eleições e votará com a mesma tranquilidade e segurança na segunda. Não sou radical, nunca apoiei candidaturas extremistas e prezo muito os valores da nossa Constituição, área em que especializei os meus estudos académicos. Não consigo é conceber que se criem rótulos de “votos bons” e “votos maus”, de pessoas democratas e não democratas, consoante a opção que cada um tomará nas urnas no próximo dia 8 de Fevereiro. Creio, aliás, que são estas posturas de rotura e de diabolização que têm contribuído para o crescimento de fenómenos populistas - como já aconteceu noutros tempos - um pouco por todo o mundo.

A democracia não é um exercício teórico. É o espaço onde a palavra substitui o insulto, onde a ideia vale mais do que qualquer rótulo e onde a diferença não transforma o outro em inimigo. Podemos — e devemos — discordar com paixão, discutir com convicção e defender aguerridamente aquilo em que acreditamos. Mas no momento em que nos colocamos num patamar superior a outro votante, deixamos também de honrar a democracia que dizemos querer proteger. Que quem quiser assumir o seu voto e o candidato que apoia – ou o voto nulo – o faça em liberdade e sem qualquer tipo de pressão. Eu própria não ponho de parte fazê-lo. Mas nunca nos esqueçamos que uma democracia viva não se constrói a apontar dedos. Constrói-se a ouvir, a respeitar e a reconhecer que o outro, mesmo quando discorda de nós, continua a ter a mesma dignidade e o mesmo direito a escolher. Sob pena de entrarmos em profunda contradição entre o que fazemos e o que dizemos e de alimentarmos as tendências que dizemos combater.



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