Manuel Igreja

Manuel Igreja

Daquela janela

Daquela janela não se vê o mar. Faz parte de uma casa erguida numa povoação por entre os montes e num planalto lindo de louvar a Deus Nosso Senhor. Está longe das bordas beijadas pelas ondas do oceano, mas não lhe faltam árvores floridas, cores variadas e belas e sons de mil tons.   

Por isso, não se enxerga o azul por cima da água feita ondas, nem se ouve delas o desenrolar tocadas pelo vento norte.  Não se vê o que nos leva à praia, mas tempos houve em que daquela janela jorrava uma imensidão de sentimento e de união entre duas irmãs.

Dos oito irmãos, seis mulheres e dois homens, somente elas viviam todo o tempo na aldeia, que igualando tantas outras, não tinha como acoitar todos aqueles que ali viram pela primeira vez a luz do dia. Ali se ouvia o primeiro berro, mas o ferro das vidas teve de ser lançado noutros chãos de circunstâncias e de oportunidades.

O delas não. Helena e Clara, deitaram raízes ali. A seu jeito cada qual fez ali o seu ninho permanente numa nada estranha forma de vida. Souberam ser, souberam viver. Souberam fazer nascer e criar. Foram educadas e educaram. Os filhos seguiram vida, mas elas ficaram passando a vida em redor das vides. Lidaram, cultivaram. Viveram no seu tempo, no tempo todo que lhes foi proporcionado.

Da janela daquela casa no meio do povo, onde vivia Helena, via-se pela nesga de uma viela a casa de Clara no outro lado da povoação. Pouco mais seria que um metro de largura, mas por ela trespassavam olhares profundos e imensamente largos.

De oras em quando, a páginas tantas e a qualquer hora do dia, espreitavam a casa uma da outra. Pequenos sinais, permitiam a comunicação quase em código. Uma sabia quando a outra saía, outra sabia para onde a outra ia, ambas sabiam quando as duas estavam. Quando acontecia, viam-se e falavam em pessoa. Teciam laços, trocavam impressões, atualizavam novidades, opinavam e recebiam opiniões.

 

Dia de domingo era dia de missa certa. Infalível e à hora marcada. Pelo toque do sino, começava o atavio melhorado, próprio de ir ver Deus e mais as conterrâneas. Ali era o ponto de encontro. A comunidade aperaltava-se com o que de melhor tinha. Elas, humildes, mas vaidosas que baste, nunca foram de ficar mal e nunca ficaram.

Qualquer trapinho lhes ficava bem. Pensavam e diziam entre si. Poderiam olhar de soslaio em redor, mas não eram de fixar os olhos nesta ou naquela, pois tinham para si que a vida de cada qual é com cada um. Cada pessoa cozia-se com as linhas que tinha, era o que era.

Nunca se atrasavam. Nunca se fizeram mutuamente esperar. Mas para os encontros no adro, eram frequentes a chegadas fora da hora marcada. Não havia uma qualquer razão especial. Só que entre o experimentar-se esta ou aquela saia ou casaco, e a decisão de se sair porta afora, por vezes perdia-se o tino do passar do tempo.

Uma saía, mas a outra já esperava. Pouco mais era que uns minutos que se podiam contar pelos dedos de uma mão. Mas parecia uma eternidade. Depois, entravam no templo sem incomodar e sem receber incómodo. O padre não dava por isso, e dizem que nem mesmo Deus notava. Se notava, fazia de conta que não.

Ele bem sabe que o mundo não é mundo sem que todo o ser humano tenha o seu pecadilho. O delas seria aquele e mais um ou outro de somenos importância de perdão com leve penitência. Uns padre-nossos e umas ave-marias.

Uma e outra estão agora junto Dele. Não foram ao mesmo tempo. Mas lá em cima por entre as estrelas, não há longe nem distância e o tempo nem sequer tem substância. Nem chega a ser um conceito. No entanto, tenho para mim que deve haver uma janela igual à outra por onde se veem e nos topam.

Só queria poder fazer-lhes um sinal de forma de coração. Só queira. Sucede que não sei se lhes disse, mas falo-lhes da minha mãe Clara e da minha tia Helena e qualquer semelhança coma realidade, não é mera coincidência.                

                       


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