Manuel Igreja

Manuel Igreja

Avenida Versus Centro Comercial

Não resido em Vila Real, mas trabalho na cidade vai para vinte anos levado pelas circunstâncias da vida. No entanto, considero sempre que vivendo na região e sentindo-a quotidianamente tudo o que lhe respeita a mim me diz igualmente respeito.

Defendo que a urbe de cada qual se não pode ficar pelos limites administrativos da terra onde se habita, mesmo que a noção de pertença se não distribua igualmente pelo território circundante. Gostamos mais da pernada do nosso ninho, mas nada impede que se goste da floresta no seu todo.

No que à nossa região toca, vendo bem, somos todos vizinhos. Estamos, mais coisa menos coisa, a meia hora uns dos outros. Circulamos todos no mesmo largo. Por isso, bairrismos serôdios à parte, o nosso interesse deve planar com maior ou menor intensidade por tudo o que se passa seja entre portas seja no átrio da nossa casa comum.

Isto, e sem me desviar mais nos becos da escrita, não resisto a preencher este canto de folha com algumas linhas acerca das obras de requalificação na avenida Carvalho Araújo em Vila Real. Mais não seja, entendam-se as palavras como folhas caídas das árvores derrubadas. Não sei se fizeram mal a alguém, mas as coitadas levaram castigo pela opção dos homens.

Confesso que não conheço e ainda não consegui vislumbrar a nova avenida depois de pronta. Não tenho, pois, opinião suficientemente formada para formular crítica ou defesa. Mas mesmo assim há sempre considerandos que sinto legítimos enquanto cidadão que toma a liberdade de propor algumas ponderações.

Nada me custa dar um voto de confiança aos técnicos que projetaram a obra, mais não seja porque têm pergaminhos para isso. Mas também se me entristeceram os olhos perante as imagens das árvores tombadas. Como homem da terra, sinto que poucas razões existem para que se corte uma árvore, mas concordo que não podemos ficar inertes ou atados a elas quando a necessidade se impõe.

Também não me custa colocar no role das boas intenções, a vontade dos políticos que fizeram a opção e tomaram a decisão. Ao que percebi sonham com uma nova centralidade, um novo espaço comum que sirva de sala de visitas da casa feita cidade. Imaginam uma rua cheia de gente quente de amor pela terra e pela serra. Almejarão quiçá semear e adubar as noções cívicas que de tantas maleitas padecem e tanta falta fazem. Sonham-na se calhar como uma nova Ágora.

Pois bem. Mas aqui neste ponto é que se me nascem as dúvidas. Não vejo que por mais airosa que venha a ser a avenida renovada e requalificada, se consiga trazer para os seus ladrilhos passeantes que deixem lastro. Quando muito andará por ela em horas de pândega e música ao vivo. Será difícil virem a senti-la como a sala de todos. A correr bem será um bonito jardim de entrada.

A avenida Carvalho Araújo dificilmente será a Praça Maior. Com desigualdade de hipótese por causa da mentalidade e de hábitos enraizados, perderá sempre com o Centro Comercial onde se passeiam vaidades ocas em confortos artificiais.

Em Vila Real como no resto do país, não sabemos porque não queremos, que é na rua que se forjam as identidades, se mostram as vontades e se trocam as opiniões que valem por entre o adocicar do café que se toma com os amigos nas esplanadas da vida e da avenida quando ela é de todos e para todos, não porque se tem, mas porque se sente.


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