Há muitas coisas que me irritam. Contudo, não vivo permanentemente em estado de irritação. Tento acomodar a irritação como alarme discreto que me diz que algo está fora do lugar, que há um desajuste entre o que espero do mundo e o que o mundo está disposto a entregar.
Deste ponto de vista, a irritação pode até ser útil, como um toque breve no ombro que nos obriga a reparar em algo que precisa de ser feito ou interrompido. Só que, como todos os alarmes, quando toca sem parar deixa de informar e passa a magoar o ouvido e a tirar-nos do sério.
Por isso admiro-me com o vastíssimo número de pessoas que vivem constantemente super irritadas, a ponto de, em todas as instâncias, lavrarem protestos veementes, definitivos e dramáticos, como se o mundo inteiro estivesse contra elas, ou fossem condenadas a carregar nos ombros uma razão que ninguém mais partilha.
Esta tribo dos indignados, que tudo e todos escandaliza, e não conhece forma de trazer para o discurso social uma réstia de esperança, um elogio, uma observação positiva, ou o puro enunciado de uma grama de beleza, é gente muito perigosa. Perigosa não por levantar problemas — porque há problemas, e muitos, e seria infantil fingir o contrário —, mas por abolir qualquer horizonte de conversa que não seja o da destruição sem remissão.
O indignado profissional não descreve o mundo: sentencia-o. Não argumenta: acusa. Não procura compreender: procura culpados. E, sobretudo, não imagina saída, porque o seu prazer íntimo está em confirmar que não há saída.
É curioso como este tipo de indignação se apresenta sempre como virtude. Quem vive indignado acredita, ou finge acreditar, que a indignação permanente é prova de lucidez e coragem. Como se a serenidade racional fosse cumplicidade, sinal de fraqueza moral e traição à verdade.
Para estas criaturas irritadas e indignadas, o mundo está dividido em duas cores, e quem não escolhe uma delas é automaticamente suspeito. A frase “tu não percebes” aparece como um carimbo. A expressão “isto é uma vergonha” substitui qualquer raciocínio. E há, nesse modo de estar e de expressar, uma tentação de superioridade: a sensação de que só eles veem, só eles sentem, só eles sofrem e, por consequência, só eles têm razão.
Além disso, a tribo dos indignados procura ativamente o contágio. A sua linguagem é viral porque é simples e emocional. A frase curta, o julgamento imediato, a ironia azeda, o sarcasmo pronto, a humilhação do outro como espetáculo: tudo isso dá uma sensação instantânea de poder.
Obviamente, indignar-se é mais fácil do que trabalhar uma ideia, mais rápido do que construir uma solução, mais chamativo do que reconhecer um progresso pequeno. É um atalho psicológico: troca-se o esforço por uma descarga. E, a cada descarga, o corpo pede outra, como se a indignação fosse droga da alma.
É por isso que considero esta gente perigosa. Porque, sem o perceber — ou percebendo e não se importando —, trabalha contra a possibilidade de melhoria. A mudança exige energia, a energia nasce de um desejo de futuro e o futuro só se deseja quando há pelo menos uma ideia de que vale a pena lutar pelo amanhã.
O indignado permanente não quer melhorar o mundo: quer provar que o mundo é irremediável. E, quando uma pessoa acredita que tudo é irremediável, abdica da responsabilidade, que é sempre incómoda.
Talvez a principal tarefa dos racionais construtivos, hoje, seja reabilitar a elegância moral do equilíbrio. Aprender a dizer “isto está mal”, propondo a solução. Denunciar sem humilhar e discordar sem aniquilar. E, acima de tudo, tentar sempre incluir no discurso uma réstia de esperança, um elogio justo, uma observação positiva quando existe razão para tal.
Convém que alguém se mantenha firme na ideia de que é provável encontrar no Mundo pelo menos um grama de beleza por dia. A beleza desocultada das trivialidades diárias pela inteligência e pela criatividade, mesmo em doses mínimas, tem um poder político muito efetivo.
A beleza não é ornamento para disfarçar as misérias, é prova de que ainda há algo que pode ser cuidado, que merece ser preservado, que pode crescer. Um gesto de cordialidade, uma solução pequena que funciona, uma melhoria discreta numa rua, num serviço, numa relação, são sementes de otimismo e de esperança que é fundamentalmente necessário cultivar.
Se esmagarmos a nossa vida com o peso do cinismo, ficamos apenas com terra dura e mãos vazias. A irritação pode ser um sinal para agir, mas viver em irritação é viver sem horizonte. E quem vive sem horizonte acaba por desejar que todos os outros também vivam no mesmo buraco escuro.
Contra os irritados e irritantes profissionais, o melhor antídoto é a lucidez que critica mas não intoxica, vê os defeitos mas reconhece o que vale a pena preservar, serve de ferramenta na construção de soluções práticas mas sem se transformar no martelo social com que se destrói a própria possibilidade de futuro.