Paulo Fidalgo

Paulo Fidalgo

A ascensão das "Talking Heads"

Ao ligarmos a televisão, somos confrontados com uma galeria interminável de "talking heads" (cabeças falantes) — figuras que povoam painéis de debate de manhã à noite, opinando sobre tudo, desde a geopolítica do Leste Europeu à eficácia de uma nova vacina, passando pela tática do futebol e as nuances do Orçamento do Estado.

A proliferação destes programas de comentário não é um acidente, mas uma resposta à economia da atenção. Produzir informação de qualidade — com reportagem de rua, investigação e verificação de factos — é caro e moroso. Colocar três ou quatro pessoas num estúdio a discutir os "temas do dia" é barato, preenche horas de grelha e gera o tipo de conflito que alimenta as audiências e as redes sociais.

O fenómeno mais inquietante desta saturação é a chegada à arena televisiva de figuras provenientes de zonas cinzentas do saber. São comentadores profissionais que têm como principal competência a fluência verbal, mas que carecem de uma base sólida em qualquer área específica. Criou-se a profissão do "opinador": alguém que não sabe fazer coisa alguma, no sentido prático ou técnico, além de falar.

A omnipresença destas figuras tem impactos profundos na perceção pública e na qualidade do debate democrático, produzindo resultados que socialmente se vão consolidando/naturalizando como realidades aceitáveis.

Em primeiro lugar temos erosão da autoridade. Quando todos são especialistas em tudo, ninguém é especialista em nada. O público acaba por perder a capacidade de distinguir entre um facto fundamentado e um palpite audaz.

Em segundo lugar, temos polarização por conveniência. Para garantirem o seu lugar no painel, muitos comentadores adotam posturas extremadas. O objetivo não é chegar a uma síntese ou esclarecer o espectador, mas sim marcar uma posição contrastada que gere níveis mais intensos de discussão.

Em terceiro lugar temos o triunfo da forma sobre o conteúdo. Valoriza-se a dicção, a capacidade de interrupção e o carisma televisivo em detrimento da profundidade do argumento.

Estas personagens das zonas cinzentas do saber habitam um vácuo de competência. Muitas vezes, são figuras que transitaram da política sem sucesso, do direito sem prática ou de uma fama efémera na internet. O seu capital é a palavra colorida, o adjetivo sonante e a capacidade de preencher o silêncio com uma segurança absoluta sobre assuntos que desconhecem.

Em última análise, a ditadura das talking heads transforma a televisão num espelho deformante da realidade. Em vez de uma janela para o mundo, temos um estúdio fechado onde o ruído substitui a reflexão. O perigo não é apenas o que eles dizem, mas o que deixamos de ouvir enquanto eles falam: o silêncio necessário para pensar e escutar a voz de quem realmente sabe fazer.


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