Paulo Fidalgo

Paulo Fidalgo

Chuva não é mau tempo

Os media dramatizam diariamente o "mau tempo", querendo com isso dizer, apenas, que chove quando deveria chover, uma vez que estamos em pleno outono.

É péssimo sinal, quando a regularidade climatérica assume má reputação, apenas porque os pobres humanos se desabituaram da natureza.

A chuva sempre desempenhou um papel central na vida das comunidades humanas, sendo vista ao longo da história como um elemento sagrado e fundamental para a sobrevivência e bem-estar das populações.

Curiosamente, nas sociedades modernas, especialmente nas grandes áreas urbanas, a perceção da chuva sofreu uma transformação drástica. O que outrora era visto como uma bênção dos deuses, hoje é frequentemente encarado como um contratempo ou uma inconveniência.

Nas cidades, a chuva é sinónimo de trânsito caótico, acidentes rodoviários, necessidade de abrigo e, para muitos, uma interrupção indesejada das atividades quotidianas.

A necessidade de tomar abrigo, seja com guarda-chuvas, seja com vestuário impermeável, reflete uma atitude de desconexão em relação ao elemento natural, como se a água que cai do céu fosse uma intrusão nos planos humanos.

Esta atitude pode ser vista como um sintoma mais amplo de um afastamento progressivo entre o ser humano e a natureza. Nas cidades, o contato direto com o ciclo natural das estações, das chuvas e das secas, é muitas vezes mediado pelas infraestruturas e pela tecnologia, que nos permitem viver de forma relativamente independente do clima.

A experiência física e sensorial de sentir a chuva no corpo, uma sensação que outrora era associada à fertilidade e à bênção divina, foi, para muitos, substituída por um desconforto e uma aversão ao molhar-se.

Num momento em que a humanidade enfrenta desafios ambientais e climáticos, a chuva adquire uma nova dimensão de urgência e relevância. Como parte do ciclo da água, a chuva é fundamental para a sobrevivência de todos os seres vivos, e a sua repetibilidade reforça a ideia de que os ciclos naturais são manifestações que os seres humanos devem respeitar e honrar.

Louvemos, pois, a chuva, enquanto manifestação da ordem natural e símbolo de vida e sabedoria. Viva a chuva, viva o bom tempo deste Outono maravilhoso que tanto promete. E vivamos todos nós, nesta harmonia delicada com o ecossistema de que somos ínfima partícula, mas principal sujeito.


Partilhar:

+ Crónicas