Luis Ferreira

Luis Ferreira

As rondas políticas

Já vamos estando habituados a que as iniciativas políticas se prolonguem através de várias rondas. Nada se faz à primeira. Arrastam-se as conversações e as negociações, seja sobre o que for. Não é de agora nem será agora que vai terminar. 

Vimos o que se passou desde o início da guerra da Ucrânia, voltámos a ver com a guerra de Israel na Faixa de Gaza e novamente na guerra do Irão. Várias rondas de negociações, vários adiamentos, memorandos, ajustes e no fim nada muda.

Neste fim de semana os EUA enviaram à Rússia dois negociadores para conversar com Putin sobre como acabar com a guerra na Ucrânia. Nada ficará resolvido. Todos sabemos que para Putin as coisas só se resolvem quando e como ele quiser, mesmo atravessando momentos muito difíceis na sua economia e até mesmo socialmente. Não esquecemos que no próximo dia 20 há eleições para o Parlamento Russo e Putin está preocupado com isso. Claro que não tem partidos de oposição, pois tratou de os aniquilar para não ter quem com ele pudesse concorrer e por isso terá, aparentemente, as eleições ganhas. Mas não se livra de uma oposição interna que está a crescer cada vez mais face ao aumento da carestia de vida e à quantidade de perdas humanas numa guerra que ninguém quer.

Receber os enviados dos EUA é apenas uma demonstração de charme para ficar bem na fotografia política. Mas como estes enviados também querem ir a Kiev falar com Zelensky e têm medo de serem atingidos pelos bombardeamentos que Moscovo está a efetuar, esta passagem por Moscovo fez com que Putin evitasse bombardear a Ucrânia neste entretempo. Assim eles estarão em segurança. Mas nunca fiando! Esta ronda serviu para alguma coisa no fim de contas.

Mas as rondas políticas não se resumem às que se fazem entre Moscovo, Washington, Kiev ou Telavive. Elas fazem-se também internamente.

Neste momento, nós vivemos algum sobressalto gerado pela figura política do nosso governo que, sem que se esperasse, a comunicação trouxe para a ribalta quase por mero acaso. Luís Neves, rodeado de uma aura de eficiência e honestidade, viu-se de um momento para o outro, acusado de uma série de coisas aparentemente menores, mas que foram empolgadas pela comunicação social e por ele mesmo. Na verdade, já todos sabemos o que se passou, mas Ventura quis fazer disto um cavalo de batalha e tirar algum proveito para si e seu partido.

Esquecido nos meandros das férias e de uma rentrée que não chegou a fazer verdadeiramente, viu aqui a oportunidade d se mostrar e tirar dividendos políticos, mexendo cordelinhos não só de Luís Neves, mas também de Seguro e de Montenegro. Tentando encostar todos à parede num sentimento de mistura conjunta cuja massa deveria ser atirada à suposta parede da casa do ministro, Ventura não recebeu o retorno que pretendia. Assim, e para afirmar a sua vontade política e revolta contra o que não conseguiu ouvir, acabou por entregar no Parlamento uma Moção de Censura que, à partida, ele sabe que será chumbada por falta de consistência.

Contudo, estas voltas e reviravoltas políticas levaram a rondas várias pelos diversos partidos do panorama português. Quase todos se pronunciaram contra Luís Neves, mas pouco disseram quanto à Moção. Claro que nenhum se quer posicionar ao lado do CHEGA e por isso Ventura sente-se só e mais revoltado. Os portugueses não querem eleições agora e não querem o Chega a tomar iniciativas destas, tentando conduzir a política portuguesa num momento em que as coisas estão a ir ao lugar, mesmo lentamente.

Deste modo, setembro entra com discussão política no Parlamento ouvindo o que Ventura defende na Moção de Censura e o que o Ministro vai dizer em sua defesa. É verdade que este Ministro se tem arrogado de demasiada eficiência e honestidade e pouco se tem defendido sobre o que o acusam. A arrogância não é boa conselheira e pode sair cara. Nunca se sabe até que ponto Montenegro não terá na manga uma reforma do governo em que este Ministro seja substituído. Não era a primeira vez que tal acontecia. Talvez ele esteja a fazer mais uma ronda para perceber quem pode afinal, substituir Luís Neves e mais alguém. Nunca se sabe. A ver vamos.



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