Manuel Igreja

Manuel Igreja

Vemos, Ouvimos e Lemos. Não Podemos Ignorar

Quem atento vire página de jornal ou se quede um pouco deitando o olhar ao ponto de se prender no passa na televisão, sente nascer-se-lhe um desconforto e algum temor quanto ao que acorre neste presente, em que se antevê um futuro que já é o que era só porque o não deixam ser.

A inquietação consolida-se à medida que se vai concluindo que ou está tudo grosso, ou então está tudo cada vez mais ensandecido. O planeta lembra cada vez mais um barco a afundar-se enquanto a orquestra toca com homens e senhoras dançando distraída e inconscientemente no salão abrilhantado pela vacuidade em todo o seu esplendor.

Mas se olharmos para a lonjura dos tempos, mesmo até aos confins do que se sabe, logo nos apercebemos que a atitude de causar o mal através da guerra, sempre foi apanágio da raça humana com todos os seus requintes de malvadez. Os pretextos sempre foram diversos, mas a finalidade nunca passou de em cada contexto se querer ter posse do que é dos outros.

A diferença entre o antes e o agora, centra-se principalmente no facto de nos tempos idos se saber quem mandava, quem obedecia, quem opinava, quem influenciava, contrariamente ao hoje em que tudo é subterrâneo, sub-reptício e até mesmo mais covarde entre os teclados e os ecrãs das máquinas.

Quase diria que quando a roda se desengonçava as coisas estavam um pouco mais nos eixos mesmo que tenham acabado nas tragédias que bem sabemos, pois o mal estava identificado e localizado por parte de quem era lúcido e sedento de justiça.

Fica-nos o saber que a humanidade sempre se ergueu, sempre se adaptou, sempre se solidarizou e sempre avançou mais não fosse mudando alguma coisa para que tudo ficasse na mesma. Os cenários foram-se modificando, os actores foram-se revezando, mas a peça foi e é sempre a mesma. Uns contra alguns, alguns contra outros, outros a favor de alguns. Todos contra ninguém, mas ninguém a favor de todos.

Neste junho em que a primavera se agarra quem nem uma lapa ao céu, como se o verão não tivesse direito a tomar conta dele, a vida dos humanos no planeta, parece uma peça de teatro encenada por loucos. A Terra é bela, mas está muito mal frequentada, quase apetece dizer.

Inundados de informação e famintos de sabedoria, os cidadãos fazem emergir os piores por ausência dos melhores. Toda a gente sabe, toda a gente teme, mas as maiorias buscam refúgio no encanto do silvo das serpentes e dos vendedores de banha sob a forma do sonho da segurança e da prometida abastança.

Manipuladas e manipuladoras, as multidões caminham alegremente para o precipício, arrastando a dignidade, esquecendo a solidariedade enquanto confundem a árvore com a floresta, e o lobo com o cordeiro.

Os camafeus vão dando-lhes dando a corda para o enforcamento cientes que a lição da História de nada serve para quem dela se não lembra, mesmo que todos a saibam de cor e salteado. Ainda se ouvem os ecos dos horrores, mas batem na parede que esconde a inteligência comum.
O mundo foi tomado pelos salteadores das esperanças perdidas. Aqui e ali, acoitam-se nos galhos nos confins dos matagais do poder. Riem-se enquanto outros piam, porque sabem que os ventos lhe estão a favor no oceano encapelado.

Uma pessoa tenta sentir-se grávido de esperança, mas é difícil. Sabemos por exemplo que na América milhares de crianças refugiadas são tratadas vil e desumanamente só porque tiveram a desdita de nascer no sítio errado e lhes deu para fugir da guerra e da fome.

Como escreveu Sophia de Mello Breyner Andersen: vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar (…). Nada pode apagar o concerto dos gritos. Amanhã pode ser a nossa vez, e pode não estar vivalma por perto.


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