Manuel Igreja

Manuel Igreja

Um tiro no porta aviões

O escrito no título que acabou de ler, não é uma afirmação, mas também não é uma constatação. Sendo algo que sucede de oras em quando no desenrolar de uma guerra para lamento de uns e para gáudio de outros, conforme o lado, aqui é somente uma forma de expressão.

Portugal não está em guerra e mesmo que estivesse, essa coisa do porta aviões é brincadeira só para os ricos. Os de menores recursos ficam-se pela metralha e mesmo essa não será assim tão barata. Mas também queima. Basta a gente lembrar-se que conhecemos casos em que alguém a rouba, mas logo a devolve para se não chamuscar.

Mas isso não é agora para aqui chamado pois já temos aperreações que nos chegam. Pense uma pessoa nelas e nem sono tem porque a inquietação se encarrega de o espantar levando-o para longe que nem folha tocada pelo vento suão que é quente e escalda.

Volvendo à parada que é como quem diz, ao assunto. Sucede que desde há uns bons trinta anos, quem manda achou por bem transformar o nosso país em algo parecido com uma estendida esplanada com cadeiras reservadas para os estrangeiros, fazendo de conta que essa coisa de produzir bens de raiz é para os pobres lá de longe.

O solo luso é visto como um pequeno paraíso na terra, falsa modéstia de lado, e pensou-se que bastava. Nunca fomos assim lá muito de meter a mão na massa, pois sempre nos deu mais para o comércio e para o vender revendendo, por isso, seguindo a tradição, deitamos mão ao potencial turístico que nos calhou em sorte.
Claro que o melhoramos e nos aprimámos e que temos jeito para o ofício, o clima ajuda, a comida é de truz, a bebida ainda melhor e, com a simpatia própria de excelentes anfitriões, íamos cantando e rindo, dando como mais ou menos certo um futuro, que de repente se modificou. Deixou de ser o que era num presente que nos dá saudades do passado.
O nosso mundo tecido nas malhas da modernidade em que se entre cruzam saberes tecnológicos e científicos nunca vistos, por causa de um vírus reles que nos rala, rompeu pelas
costuras. Quase sem ruído ruiu. Escafedeu-se e deixou a nu as enormes planícies áridas de bom senso que estão escondidas pelas escarpas da ignorância e da arrogância.

O céu que antes estava cheio de aeronaves em navegação a deixar rasto, está agora mais limpo. Os humanos deixaram de cirandar como cirandavam, confinaram-se com muito medo e pouca vergonha. Ganhou o meio ambiente, mas perdeu e perde a economia que mirra e esmorece.

Para países que como Portugal se ativeram ao turismo enquanto suporte de navegação, as coisas complicaram-se muito mais porque de outras forças motoras têm de menos. Fiaram-se no vento que passa, mas assim que ele amainou, o barco estagnou.

Havia a esperança de que pelo verão tudo estivesse minimamente controlado e com a frota a navegar. Mas infelizmente não anda. Nem sequer à siga. Os estrangeiros não se podem vir consolar com o que temos. Portugal está no rol dos sítios perigosos. Deram-nos este amargo de boca, depois se andarmos cheiros de ar por nos termos como diferentes.

Na guerra de números e de interesses em que muitos lobos ficam sem ceia, levámos um tiro no porta aviões. Esperemos que sirva de lição para que aprenda com quantos paus se faz um país que é sempre algo mais que uma canoa.


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