Manuel Igreja

Manuel Igreja

O Vinho

Há quem diga para quem acredite, que na Antiga Pérsia, um certo rei mandava colocar uvas em jarras para serem comidas mais tardiamente quando lhe dava no real goto e na excelsa gana.

Sucedeu que numa delas as uvas a dado momento começaram a espumar e a exalar um cheiro muito forte, levando a que se pensasse ser veneno aquele líquido tão belo apesar de tudo.
Vai daí que num certo dia, uma das concubinas do real senhor, desgostosa de amores, ou por falta deles, resolver ingerir o sumo fermentado procurando a libertação do desgosto pela morte.
Mas enganou-se. Quando deu por ela cantava que nem pintassilgo e dançava que nem bailarina de primeira apanha, ainda que cambaleando. Ficou ébria sem querer, mas encantou quem queria encantar e todos viram então que das uvas fermentadas se podia conseguir uma bebida de sonho. O vinho.

Nem sei que diga. Seja como for, o vinho vem desde há muito tempo, ainda que com fama nem sempre louvável, não deixando nunca de ser requerido, bebido e mais ou menos apreciado. Nunca houve festa em que não metesse estopa como se costuma dizer.

O cultivo da vinha desde há que tempos, foi-se espalhando dando origem a regiões esplendorosas e mais ou menos rendosas. Indo ao nosso caso que é semelhante a mais alguns, nisso, os monges marcaram pontos. Viram o potencial do produto e mandaram espalhar os vinhedos.

Associado aos rituais simbólicos e religiosos, quando se lhe associa o sangue de Cristo na Eucaristia, foi tido como coisa de valor também quando se lhe juntou a ideia que dava força e alimento. Não faltaram por aí valentes que trabalhavam de sol a sol com uma côdea de pão e com um garrafão no buxo, revolvendo pedras e terra.

Em dado tempo e em certos contextos, foi mesmo bebida de desmandos, sendo aquilo que alguns mais adoravam e só por morte deixavam. Mas tudo muda, ainda que algumas coisas fiquem na mesma. No caso do vinho mudaram em muita coisa e para muito melhor.

Hoje em dia tem-se a noção de que o vinho sendo o resultado de um conjunto de processos químicos, onde entram o clima, o território, as pessoas, as misturas de castas e a excelência das condições, ele virou um verdadeiro poema.

Saber aprecia-lo e bebe-lo, é ou tem de ser um acto de elevação. Uma atitude própria de quem sabe valorizar a vida, os amigos, o trabalho, e tudo o que é uma maravilha mesmo que uma entre outras.

Não sei onde estará a tal senhora que pretendeu morrer de desgosto por não ter o gosto de ser a única. Mas sei que aprecio o vinho, e não perco uma oportunidade de brindar com ele à vida.

Por isso aí vai um brinde para ela e para si que também merece.


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