Manuel Igreja

Manuel Igreja

O País de um dia...

Diz a lenda – num modo de dizer, pois, é verdade, que em Portugal se andou mais de sessenta anos a discutir a construção da barragem de Alqueva, enquanto em Espanha se construíam dezenas de outras mais pequenas.

Custou a decisão a ser tomada. Mas antes, a coisa andou de um lado para o outro durante o Estado Novo quando nada mudava por causa dos perigos do progresso, mas também já no decurso do regime democrático onde tudo se parece mudar, mas tudo fica mais ou menos na mesma.

Feita a obra, logo se arranjaram entraves. Construiu-se o maior lago artificial da Europa com enormes potencialidades para o regadio, mas os nossos agricultores logo se queixaram da falta de condições para agricultar. Enquanto isso, os espanhóis mais ativos que a padeira de Aljubarrota, vingaram-se e aproveitaram ao ponto de todo aquele verde dos campos ser quase só deles. Finos.

Discutir que não discorrer, elaborar estudos e não avançar, está-nos na massa do sangue. Por exemplo, ainda eu não teria cabelos brancos, começou-se a discutir o caso da linha de alta velocidade para os combóis quase voarem elegantes e lestos sobre os carris. Ora se dizia e diz que sim, ora se dizia e diz que não, ora se diz que o trajeto é um, ora se diz que é outro, e nada. Mas um dia…

Enquanto isso, quando se começou a perceber Europa afora e não só, que o principal meio de transporte no futuro será o comboio, nós por cá dedicamo-nos a desativar as linhas de caminho-de-ferro que eram como que as artérias do corpo humano dentro do território. Agora diz-se que se fará um dia…

Outro exemplo, é a questão do novo aeroporto para servir a capital. A discussão começou teria eu uma ou duas bancas no cabelo, que é igual a dizer há uns bons vinte anos. Também nisto, ora se disse e diz que é num local e logo uns são contra e outros a favor, ao mesmo tempo que uns poucos investem milhões para ganhos em especulações futuras, mas nada.

Nem os aviões aterram noutro aeroporto que não o da Portela (bem sei que tem outro nome) depois de rasaram os telhados das casas em soberbos voos sobre a cidade, nem os melros saltam dos ninhos. Isto é, os de bico amarelo saltam e buscam o pedaço para a ceia, mas esses ninguém os topa. Mas teremos novas pistas um dia…

Sobre este assunto, claro que aqui há uns dias se desenrolaram no palco cenas divinamente próprias de um ópera bufa, mas isso são outros trezentos, como diz o povo que a tudo assiste meramente preocupado com o aumentozinho no subsídio ou na reforma enquanto anseia pelo começo dos jogos da bola para concluir quem andou melhor nas milionárias contratações dos artistas.

O sistema de Saúde Pública range que nem vigas e sobrado em barraco velho de madeira, desde há décadas que se vai aguentando e servindo, mas agora está preso por arames enferrujados. Nada tarda e voam as telhas. Faz pior o desespero de que a ele tem de acorrer do que as maleitas propriamente ditas e sofridas. Mas há-de ficar como novo. Um dia…

Diz a realidade que o Turismo nos sustenta e aguenta. Obviamente sem demérito de algumas outras poucas atividades em que somos muito bons. Temos um ótimo clima, uma excelente gastronomia, paisagens encantadoras, estamos na moda, mas um dia…

Mas depois logo se verá. Se calhar porque a vida é o que acontece enquanto fazemos planos, lá vamos cantando e rindo. Mas um dia…pode ser que não.


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