Manuel Igreja

Manuel Igreja

O nosso Pai

O nosso pai, é uma coisa que nos acontece. Não escolhemos. A nossa mãe também, mas elas não só agora para aqui chamadas. São contas de outros rosários e para outras rezas.
A dado momento e no sítio certo, acontece o momento zero. A natureza feita de tantos desígnios insondáveis cumpre o seu papel, microrganismos de nem com lupa se verem encontram-se e numa explosão, digo eu, começámos a ser.

Dizem os cientistas que o universo se formou numa incomensurável explosão que se repete ainda agora e nada me custa a acreditar que no choque de titãs que nos origina, igual explodir acontece, só que no infinitamente pequeno, que sendo de nível micro, é de grandiosa proporção macro.

Mais não seja, porque deu no que somos. Bem sei que parece algo assim muito complicado, mas não. Bastou, basta e bastará que haja um pai. Não se zanguem as senhoras. E também uma mãe. Mas como disse, um dia lá iremos.

O protagonista deste escrito é o Pai. O meu, o seu, e o de toda a gente que surgiu e surgirá na História da Humanidade. Qualquer um de nós ainda mal abria os olhos acabadinho de nascer, já era para o ver. Qualquer um de nós quando já foi velhinho quase prestes a morrer, quanto não daria para nele colocar o último ver.

O nosso pai é sempre o primeiro a andar connosco de mão dada numa sensação suave ou calejada. Do braço do nosso pai até à ponta dos dedos que se entrelaçam com os nossas, escorre a força que nos dá força e a vontade que nos dá coragem. Com o seu olhar em frente e sempre rente, conseguimos ver o ponto para lá de onde a vista alcança.

Ajuda-nos a prosseguir rumo à meta a seguir. Iniciámos a jornada às suas cavalitas, depois seguimos ainda um pouco cambaleantes, depois com pé firme, enfrentando ventos e marés, porque vislumbramos e sabemos que existe um farol e um porto firme. Sabemos sempre que na gávea segue o nosso herói que nos diz da terra que se vislumbra lá ao fundo.

Com o nosso pai, aprendemos a jogar à bola e a andar de bicicleta. Com ele, aprendemos a ter a vitória como coisa certa. Do nosso pai recebemos a lição certa, porque ele nos ensina que há sempre lugar para o erro e que errando também se aprende. Dele recebemos a noção de que a vida é uma lição e uma canção, ora alegre, ora triste.

Do nosso pai recebemos os primeiros beijos os primeiros afagos, e as primeiras cumplicidades. Com ele aprendemos as primeiras verdades e as primeiras humildades. Dele recebemos o primeiro partilhar do pão oferecido com uma mão cheia de tudo para que não nos falte nada. A plena grandiosidade.

Quando o nosso tempo ainda não tem idade, com o nosso pai aprendemos a ter-nos como eternos e ternos, mas também bravos quando se nos levanta a fervura logo acalmada pela ternura que vai fazendo de nós um homem novo.

Com o nosso pai aprendemos a crescer, a viver, mas também a morrer, porque nos vamos fazendo a saber que tudo é um instante. Mas também sabemos que o beijo do nosso pai não é eterno porque é uma chama, mas é infinito enquanto dura.

Como dizia o poeta acerca de uma outra sublime coisa que deu em nós e no nosso pai. O amor.


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