Manuel Igreja

Manuel Igreja

O Douro e o Beijo na Bela Adormecida

Vossas senhorias farão o obséquio de desculpar este meu modo de entrar, mas estou pasmo. Vivemos tempos em quem a única certeza é que não há certeza alguma, em que tememos, em que devemos ponderar, contribuir e exigir, mas no altivo Douro Vinhateiro, tudo parece adormecido.

Os lavradores e mais as suas gentes erguem-se ainda de madrugada para irem labutar e dançar ao jeito das vides e da novidade que se vai formando. Tentam evitar as moléstias que nascem das desajudas do clima, esforçam-se para que as uvas singrem viçosas e gostosas nem que para isso tenham de gastar o que ainda vão tendo, sem saber até quando e se vale a pena.

Mas não desistem e insistem. Evitam fazer contas, porque sabem que o mais certo seria o resultado levar ao arrumar das botas à espera de melhores dias, e seguem de olhos postos na próxima colheita carregados de cestos vindimos de esperança, como se o lagar fosse já ali.

Este agricultar é uma emoção sentida em cada toque de mão em cada cacho, por isso o voltar atrás, é atitude somente tida em cada final de valada percorrida para se entrar na que se segue. Há séculos que não há praga que pegue neste bem querer. Por isso se ergueu a tão celebrada obra incomensurável, uma das poucas com que se podre encantar a humanidade.

Mas volvendo ao eu estar estarrecido. Sucede que estamos no ano da Graça de dois mil e vinte, está tudo de pantanas em toda a parte por mor de uma calamidade de saúde que se adivinhava, mas a que se não quis ligar, todos os sectores de actividade começam a erguer-se e as reorganizar-se, mas pelas nossas bandas, é como se nada se estivesse a passar.

Do mundo da vinha e do vinho, não se ouve uma única voz a informar, a acalmar ou a inquietar. Mais parece que anda tudo ao molho e com fé em Deus sem um sentido de orientação e sem um olhar alongado que permita pelo menos vislumbrar o futuro mais imediato, de modo a que presente se saiba o que se fazer em cada dia ou no aqui e agora.

Não é necessário ser-se especialista ou doutor de Coimbra para se deduzir que as cubas estão cheias, que vai ser difícil escoar as paletes de garrafas de vinho, mas ninguém se organiza, não se discute, ninguém informa e tudo se conforma. Parece sina.

Aliás, motivo de admiração, era se assim não fosse. Está-nos no sangue a atitude arredia à organização efectiva e sectorial, na exacta medida em que nos sobra a mania da posse do melhor vinho do mundo em cada adega e do privilégio de vermos correr o rio mais belo entre os belos.

Atarda-se o beijo na bela adormecida, e ela segue no remanso mesmo que sem descanso porque as vinhas não deixam. Farão o favor de desculpar agora este meu comparar o Alto Douro a uma donzela fora de órbita em seu leito, por certo, mas não encontro melhor comparação.

Lavo os cestos, que é como quem diz, termino o escrito servindo-lhes um cálice de vinho fino. É um supor, mas beba-se à nossa. À vossa e à minha para que se erga um clamor e se desperte quem dorme. Quem sofre de torpor.


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