Manuel Igreja

Manuel Igreja

O Catar e o catano

Há coisas que são do caraças, do carago ou do catano. Perante situações mais ou menos fora do comum, utilizamos certas formas de expressão numa maneira fácil e imediata de as classificar mais não seja para que se possam arrumar no sítio onde fica o que não merece mais esforço. O que nos leva a encolher os ombros quantas vezes por mero comodismo.

Ir para o catano ou ser do catano ouvi eu com estes ouvidos que a terra há-de comer, o povo da minha terra alvitrar desfechos e classificar coisas e pessoas merecedoras de espanto pelas melhores ou pelas piores razões.

Por exemplo, nada me custa acreditar que em relação ao Mundial de Futebol disputado no Catar aquele deserto onde o dinheiro sem fim e o saber dos homens permitiu substituir chãos de areia por esplêndidas edificações em altura e em largura ao ponto de surgirem cidades de encantar, eles diriam que o Catar é do Catano.

Antes de tudo, porque aquilo que maravilha os olhos, escurece as almas que se não contentam com os desmandos de uma civilização que foi pioneira no conhecimento, mas que agora se deixa ficar presa nos corredores da escuridão cristalizada nos usos e nos costumes. Parou-lhes o relógio num pontuar das horas tão fora de nexo, que mesmo parado não consegue estar certo pelo menos duas vezes em cada dia.

Seja como for, conseguiram que lhes fosse outorgada a organização da prova maior dos espetáculos de futebol. Ia escrever desporto, mas não escrevi porque muito mais que isso, o futebol é simples pretexto numa indústria que lava dinheiro e exibe vaidades com excelentes atletas que operam espetaculares rendilhados com a bola nos pés ou em busca dela.
O Catar conseguiu o feito. Foi um catano. Todos acreditaram que o mérito resultou de corrupção de alto gabarito e devido a negócios que se não fariam, quase todos entendiam que não havia nem há lógica por motivos de contexto, mas os interesses imediatos sobrepuseram-se à moralidade num mundo cada vez mais sem vergonha.

Quando começou o evento levantaram-se as vozes tardias dos defensores em moda preocupados com espezinhar dos direitos humanos antes e durante a construção dos estádios como se tal iniquidade fosse ali exclusiva. Piaram tarde e sem efeito. Foi um catano, pois o clamor devia ter-se feito sentir no momento da atribuição da organização do evento.

Agora esquecem-se que tendo trabalhado milhares de operários nas obras em cujo curso muitos morreram devido às condições a quase escravatura, isso se deveu aos donos da obra, mas também às empresas que muito ganharam porque as edificaram. Obviamente que grosso modo elas são de países respeitadores dos direitos humanos, mas é um catano porque convenientemente então ninguém ligou.

Mas o catano dá para os dois lados. Nada me custa acreditar que do evento resulte o despertar de algumas consciências daquela parte do mundo ao ponto de passarem a crer que crenças à parte existem hábitos e quotidianos que estando fora de tempo tem de se atualizar nem que seja no mínimo.

Do Mundial do Catar 2022 merecedor de muitos catanos podem resultar dinâmicas fora dos relvados e dos luxuosos estádios suscetíveis de fazerem germinar as sementes de mudança num lento brotar. Pode ser que mais tarde no deserto que dá petróleo e gás, desponte a flor da liberdade.

Caso isso aconteça, começa agora a ir pró catano um certo mundo. Muito devagar, mas pode ser. Pode ser um catano para os atuais senhores do Catar. E não só.


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