Manuel Igreja

Manuel Igreja

O boneco de madeira ( Conto de Natal)

Era uma vez um carpinteiro. Não foi há muitos anos, foi agora mesmo. Como o próprio nome indica trabalhava com madeira. Mas ele era um pouco diferente, pois também trabalhava a madeira, torneando-a e moldando-a ao jeito do seu poder de criar. Fazia arte.

Nas horas de pouco que fazer, esculpia-a. Dizia que se limitava a retirar o que num determinado pedaço estava a mais e fazia nascer belas e expressivas imagens. Tanto podia ser uma ave a voar, uma pessoa com ar de sonhar, um rio a correr ou o sol a nascer.

Deleitava-se e deleitava os outros. Chegou a ganhar fama nos arredores, mas nunca se lhe deu para vaidades ou para tentar ir mais além. Ficava-se pelas três ruas da sua vida que só ultrapassava quando imaginava. Então, o seu mundo não tinha fim.

Num certo dia no meio do monte de bocados de pau de todos os tamanhos, reparou num que quedo, inerte, como é próprio do que não tem vida, lhe pareceu estar mesmo à espera que reparasse nele. Sentiu assim como que um chamamento.

Quando deu por si, estava a torneá-lo, a moldá-lo. Cortou um pouco aqui, mais um migalho ali, raspou, soprou e limpou. Acabou a obra. Nem saberia dizer quantas horas ali esteve a fazer nascer. Caiu nele e viu que tinha nas mãos um bonito boneco de madeira.
Ficou-se esquecido a olhá-lo.

Não conseguia apartar-se dele. Um forte magnetismo atrai-a a sua atenção. Sentiu mesmo que o boneco lhe falava pelo olhar e pela expressão do rosto. Não fora poder ser pecado, e quase juraria que tinha alma.

Levou-o para casa. Fez dele a sua prenda de Natal. As semanas, os meses, foram passando. Ao se erguer da cama olhava para o boneco fazendo questão de ser para ele o primeiro seu olhar, e pelo se deitar, deitava-lhe um olhar de despedia antes de entrar na etérea vida dos sonhos. Morfeu descia e ele dormia.

A vida do carpinteiro foi acontecendo ora melhor, ora pior, ora mais alegre, ora com alguma angústia como é comum em todas as formas de vida. Mantendo o seu hábito continuou a laborar na e a madeira, moldou muitas outras coisas, mas nenhuma mais lhe mereceu tamanho afeto como o boneco a que se agarrou.

Sentia nele a sua própria identidade. Seria dos seus olhos, mas a cara do lanho moldado e feito imagem de menino, exprimia os sentimentos, os estados de ânimo do seu criador. As rosas da sua alma com os seus espinhos e as suas pétalas, eram também dele. Podem não crer, mas era verdade, pois como se sabe, para o ser basta uma pessoa acreditar. Ele acreditou, por isso aconteceu.

Por mor de um mal que aperrou o mundo, o artista de que vos falo teve muitos momentos de temor. Mesmo sem querer, de dentro do seu ser, nascia um inquietante temor. Com ao dele, todas as almas andavam desinquietadas, os olhares reluziam menos, os rostos andavam mais fechados e os sorrisos muito mais apagados. Nem sequer havia abraços.

Quando fez o presépio naquele ano do descontentamento, decidiu colocar nele o seu predileto boneco bem perto do Menino recém-nascido e nas palhinhas deitado. Bem sabia que ele não era uma das figuras representativas, mas deu-se a essa liberdade.

Depois da Ceia e depois de distribuídos os presentes entre os seus a quem tudo de bom queria, foi-se até junto do presépio para desejar um bom Natal ao seu boneco e através dele a todas as pessoas do mundo, pois sabia-o fruto daquela magia que faz tudo acontecer.

Estando-lhe ao pé, sentiu um estremecer. Viu o boneco sorrir com um sorriso de luz daqueles que nascem quando os olhos fazem de janelas da alma.

Naquele falar do boneco de madeira, percebeu uma semente de esperança e uma mensagem de coragem. Acreditou que tudo ia ficar bem. Foi a sua prenda de Natal.

Fique também com ela. Ele não se importa.


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