Manuel Igreja

Manuel Igreja

O barco vermelho no rio Douro

As coisas são como são. Ou integram a natureza em si mesma sendo dela elemento desde sempre e para sempre, ou são resultado da ação humana que com saber e jeito lhes deu forma e conteúdo. No fundo, tirando a alma, são como nós erguidos ao que somos pela obra que construímos.

Aliando a teoria à prática, o ser humano foi criando utensílios de maior ou menor complexidade, tendo sempre como ponto a sua utilidade, ou melhor dizendo, a sua finalidade. O engenho e a arte foram-se aprimorando.

Mas por vezes há fenómenos que não tendo aparentemente explicação, explicam tudo. Há coisas que tendo sido construída para uma determinada utilização, acabam por ser transcendidas ainda que elas isentas de discernimento para isso nada contribuam de mote próprio.

Continuam a ter préstimo para o fim a que se destinam seguindo o seu destino que como o de qualquer um ainda um dia acaba mal, mas pelo mero caso de estarem num dado local, tudo se lhes pode acrescentar por via da imaginação que não tem paragem e do sentir que não tem fim.

É o caso de um bonito e garboso barco de madeira que há anos está ancorado numa maneira de dizer amarrado, no rio Douro na cidade do Peso da Régua, enquadrado pela mais soberba das paisagens e afagado pelas serenas águas do mais belo rio que escorre para o mar com pena de se despedir daqui a cada litro de água.

Quotidianamente são às centenas as pessoas que em exercício físico ou em passeio da alma por ele passam. Tenho fé que poucos são os que lhe não deitam o olhar nem que seja de soslaio. Não sei, mas quase juro que agora que o pintaram ele sabendo-se com roupa domingueira, aproveita o mínimo passar de onda para se fazer notar.

Mas o certo é que não precisa de se manear. Está ali bonito acrescentando beleza ao quadro natural e belíssimo que nos coube em sorte. Não há quem nele não repare e não falta quem lhe tire fotografias. Parece um modelo daqueles de regalar o olhar o diacho do barco que passa a vida a espreitar por entre as árvores.

Está ali para servir para também para fazer sentir. A mim, já me deu vontade de o desprender e seguir nele sem destino. Mas como não sei nadar, não me aventurei. Fico-me por o apreciar e deixar que seja ele a entrar por mim adentro para me levar ao sabor da corrente. Depois volto e sigo que a vida não é feita ali ao pé dele mesmo havendo mais marés que marinheiros.

Barcos também há muitos e muito belos. Esplêndidos. Alguns são mesmo palácios flutuantes. Mas este, feito de simples ripas de madeira, como dizia Fernando Pessoa de um outro rio, é o barco da nossa aldeia, e por estar ali naquele sítio, é o barco mais lindo do mundo e cabe nele todo o universo.


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