Manuel Igreja

Manuel Igreja

Falharam-nos. Falhámos.

Os líderes do mundo ocidental, aquele onde por sorte vivemos, falharam-nos e só agora é que começamos a sentir. A saber, já foi antes, mas não ligamos. Dos escombros da Segunda Guerra Mundial, aquela em que gente igual a nós, foi capaz de causar o mais horrível e alargado sofrimento, conseguiram com a nossa ajuda, proporcionar-nos um mundo melhor.

Melhor, ao ponto de nunca antes ter havido nada igual. No pós-guerra, seguindo os preceitos da Social Democracia e da Democracia Cristã, as políticas levadas a efeito permitiram o alcance de formas de vida em que o bem-estar passou a ser dado adquirido para o comum dos cidadãos, com a exceção infeliz para alguns devido a circunstâncias próprias e contextos particulares.

A coisa foi ao ponto de as pessoas da geração a rondar a meia-idade quase se ter esquecido do antes, ou a não saber dele e pessoas da geração imediatamente posterior, a páginas tantas a se convencerem que o natural e o garantido era esse tipo de quotidianos. Sobressalto daqui sobressalto dali, afirmara-nos que desde que houvesse empenho, o futuro seria minimamente risonho e que o caminho do seu rumo seria sem impedimentos inultrapassáveis.

Formataram-nos assim e nós moldámo-nos. Prometeram e nós acreditámos, porque nos convinha e porque merecíamos e merecemos. Mas os nossos líderes por falta de carisma, de visão e de competência falharam-nos. Não cumpriram o prometido como é devido. Hoje em dia neste inverno do nosso descontentamento começamos a concluir que o futuro já não é o que era e não será o que disseram que seria.

A História movida pelas circunstâncias que os homens lhe acrescentam, vai modificando conteúdos e formas, vai fazendo perecer umas coisas e vai fazendo surgir outras numa dinâmica imparável, umas vezes previsível e com tino, noutras imprevisível e sem nexo. Depende do que sucede e do censo que brota em cada momento e em que cada interveniente.

Por exemplo, e para irmos ao ponto, depois de em boa hora se ter derrubado o muro de Berlim com o fim evidente do embate entre duas ideologias antagónicas em cujo nome se orientavam os assuntos, o mundo ficou sem norte. Passou a grassar a postura do salve-se quem puder, num ganhe quem mais for capaz, sem nada orienta para um todo, e tudo para o cada qual por si.

Os que faziam e fazem papel de estadista, salvo uma ou outra exceção, prostituíram-se e prostituíram-nos. A força do dinheiro semeou o encanto pelo vil metal na proporção inversa com que se esqueceu a moral. Os políticos venderam as políticas, fazendo vista grossa às origens das fortunas infames que esvoaçavam e se escondiam deixando colaterais e chorudos proveitos. O imediato substituiu o médio e o longo prazo. Os contextos deram os pretextos. As vaidades vãs tomaram o lugar do conhecimento. Tudo se tornou volátil e nada ficou firme ao ponto de estarmos agora com o chão a fugir-nos debaixo dos pés.

Os nossos líderes do final do século XX e da primeira década do século XXI falharam-nos. Foram tontos, todos concluímos agora. Mas nós, meros cidadãos, senhores do poder de escolher, também falhámos. Todos deixámos que o mundo virasse um lodo, um charco infestado de seres repelentes, mas luzidios.  

Não estivemos bem, porque os elegemos e somos responsáveis. Falhámos porque acreditamos sem refletir. Falhámos porque nos encantámos com o fátuo trocando o essencial pelo acessório. Falhámos quando comprámos olhando ao preço e não às condições tantas vezes escravas de produção. Falhámos porque não ensinamos os nossos filhos que nem sempre o que reluz é ouro. Perdemos o hábito de olhar para o lado.  

Somos humanos. Por isso falhámos. Mas porque assim somos, também construímos, também sabemos ultrapassar e também sabemos vencer. É só emendar e seguir. Com os erros também se aprende. No fundo, isso é a inteligência. Só não falha quem não faz.                               

  


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