Manuel Igreja

Manuel Igreja

Está tudo grosso

Uma pessoa nasce, vai vivendo, os anos vão passando e de oras em quando cuida que já viu tudo o que é capaz de a espantar por tão enormes serem as surpresas e as situações admiráveis ou insólitas. Mas engana-se a todo o momento. Ali em baixo já vou dizer porquê.

Nos meus tempos de menino e moço, ainda me lembro, quando alguém se deparava com algo incomum, logo se benzia com a mão esquerda para esconjurar o mafarrico que como sabemos não se descuida no atentar das almas, mister de onde a toda a hora advém coisa de muito se admirar.

No que a mim respeita, nos tempos desta nossa modernidade, não se me dá para arrenegar o demo, mas não me faltam ocasiões para me estarrecer com as coisas do mundo que me rodeia de por perto e de muito longe. Vou estando atento como qualquer cidadão que se preze, depois espanto-me e franzo por vezes a testa porque me preocupo um pouco.

Não deixo ou procuro não deixar que a aperreação tome conta de mim dado estar muito pouco na minha mão o poder de influência para modificar as coisas, mas não posso deixar de sentir uma certa inquietação por causa do modo como vamos e por causa do estado a que isto chegou.

Olha um homem para o mundo, e logo este mais lhe parece um imenso palco de loucos onde cada qual é um actor que não sabe minimamente o seu papel, pois a não ser assim, somente me resta com licença de vossorias, dizer que está tudo grosso. Claro que também pode ser dos comeres, mas isso por ser mais complicado, não me cabe a mim afirmá-lo.
Por exemplo. Numa cidade da América, querem derrubar a estátua de Cristóvão Colombo por o considerarem um verdadeiro assassino em série, um criminoso que matou indígenas aos milhares aquando das Descobertas, assim como se fosse possível olhar os acontecimentos históricos fora de contexto e de época.

Com tanta coisa a acontecer no mundo, digna de nos arrepiar e capaz de envergonhar qualquer ser humano, espalha-se a moda de reescrever a História. Por esse andar, não vai escapar ninguém desde Adão e Eva, caso não se lembrem de dizer que dentro da maçã estava um bicho que foi comido no momento do pecado original. Admirava-me.

No nosso canto à beira mar plantado, apesar da pacatez e da aprazibilidade do clima, também não faltam situações que mais parece serem de sandice ou de estados menos recomendáveis, podendo, no entanto, e também, serem resultado de cortinas de fumo para que se não veja e fale do que verdadeiramente importa.

Discutem-se por exemplo, os costumes da Nação sob o olhar do fascismo higiénico dos urbanos que apesar de nunca terem sujado as botas calcando terra, nem nunca terem ouvido o cantar da cotovia se atrevem a considerar atrasado o mundo rural. Vão muito à frente. Acham.

Vivem com o seu cão chamado gaspar enjaulado no apartamento, mas acham uma crueldade alguém ter o seu cão na casota. Mas depois os que apanham depressões são os deles apesar de tocarem piano e falarem francês. Deve ser de aturarem os donos, ou recomendação do veterinário agradecido.

Podíamos continuar por aí além este olhar sobre o palco sem esquadria e sem cortinas, mas fico-me. Prefiro desejar que o bom senso brote e se espalhe, ou que os vapores passem. Temo um pouco é a ressaca.


Partilhar:

+ Crónicas

O palco para o Papa

Baralhar e tornar a dar

O Catar e o catano

O Douro e a escala

A Bedford

A Mulher duriense

O pacote e os tolos

Voar

Os Sonhos