Manuel Igreja

Manuel Igreja

Baralhar e tornar a dar

A espuma dos dias não nos deixa sossegar em quotidianos que mais se assemelham a torneios de caça aos patos no lamaçal do que a um país ordeiro e ordenado, decidido e planeado.

Num tempo em que as condições são melhores que nunca depois da epopeia dos Descobrimentos que nos trouxeram ouro e canela aos pontapés que em nada deram porque não estivemos para nos ralar a trabalhar para criar riqueza que ficasse e se visse. Foram só vaidades mostradas com pavões armados em cada esquina.

O momento político carateriza-se por haver uma maioria absoluta no Parlamento com condições próprias para reestruturar o Estado propriamente dito e mais o esta das coisas, existem fundos financeiros disponibilizados pela União Europeia que se viessem em notas embaladas enchiam camiões e mais camiões, há a possibilidade de fazer no torno uma nova estrutura para a Nação, mas, nada vezes nada.

Estamos num alvoraço por motivos escusos e escusados. O governo leva um ano de vida ou pouco mais, mas está num rodopio a arranjar justificações e motivações para combater as acusações de compadrio, de corrupção e de finuras perpetradas que encheram carteiras de pessoas importantes, impantes e sem maneiras. Dizem.

Os jornalistas andam numa azáfama a descobrir tocas de coelhos e lobos por entre o rebanho. Que nem furões fazem saltar para a ribalta figurinhas que foram figurões antes de se tornarem figuras conhecidas e supostamente tidas e havidas em coisas malfeitas.

Não há dia em que a oposição não aponte um secretário de Estado ou um ministro que em sua douta opinião não reúna condições políticas para continuar no exercido do cargo. Portugal parece um jogo de matraquilhos com os jogadores a jogarem ora de um lado ora de outro, defendendo e atacando como o lado da mesa e onde se não muda de campo há muito tempo.

Neste, entretanto, o governo não governa ou governa pouco, a oposição não se opõe apontando alternativas e outros caminhos. Limita-se a acusar procurando causar mossa enquanto os acusados e quem os rodeia, gastam tempo e queimam os miolos a apresentar argumentos negando os libelos acusatórios.

A legislatura ainda nem sequer estar perto do seu meio, mas o governo surge a nossos olhos desgastado e sem chama. Parece um governo velho com idade de ser novo e fresco. Está carcomido pelo caruncho que nem móvel clássico descuidado do tempo de antepassados emoldurados em fotos a preto e branco. O solar feito país está moralmente em ruínas. Os cidadãos seus donos pouco ligam e só querem que das caleiras pingue alguma “água” para as suas hortas.

Os alvoroços erguidos nas bolas de sabão que rebentam e fazem espuma, respingam, mas quem se devia molhar não se molha porque a telha logo se prolonga, esconde e faz esquecer, porque surgiu um novo caso, num ciclo que se torna repetido e vivido.

A política degrada-se e desagrada. Perdeu elevação e motivação. Os que nela exercem com ou sem pertinência e/ com ou sem justiça são acusados e condenados na praça pública. Tornou-se absolutamente inconveniente e de se não recomendar para quem dentro da comunidade tenha valor demonstrado e nada queira acrescentar ao currículo.

O Poder e os corredores principais que a ele levam, está enxameado por quem nada mais fez do que política, por quem ainda pouco ou nada provou, e por quem nada mais tendo, tudo tem de fazer para sobreviver no habitat em que se habituou e onde vive.

Nos poucos dias deste ano da Graça de dois mil e vinte e três, surge com a esperança de não ir ser tão mau como se temia porque económica e financeiramente o contexto parece equilibrado apesar da ópera bufa nos palcos da política em boa parte encenada pela comunicação social, mas o jogo parece viciado ou mal embaralhado.

Mas vale que baralhar e tornar a dar.



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