Manuel Igreja

Manuel Igreja

As Adegas Cooperativas

No tempo em que o vinho mais que uma moda era uma forma de vida, as Adegas Cooperativas assumiam um papel de primeira importância no setor do vinho e da vinha. Resultantes da necessidade de ser dar destino às uvas vindimadas por quem ainda não estava organizado sob a forma de empresa ou a nenhuma delas as entregava para o devido fim, assumiram-se naturalmente como instrumento no final da fileira da vinicultura.

Surgidas nos meados da quinta década do século passado, espalharam-se por todos as regiões do país, nomeada e obviamente na região do Alto Douro com as caraterísticas comuns e dentro dos conceitos cooperativos, impulsionados pelo pensador António Sérgio, mas simultaneamente com os pendores próprios de uma região com circunstâncias únicas devido ao vinho generoso por motivos que a história explica tornado conhecido como vinho do Porto.

No Alto Douro, pode dizer-se, não existe concelho sem a sua Adega Cooperativa equipada a preceito para as necessidades de então, se calhar com algum excesso e ao arrepio da estratégica económica, mais isso é vinho de outra pipa, como se costumava dizer quando o fito do assunto a abordar era outro. Próprio da época, houve vaidades, rivalidades e espírito de paróquia.

Durante décadas, ora melhor, ora pior, as vindimas foram-se fazendo, as uvas foram-se vinificando e os vinhos foram-se vendendo. Tranquilamente, pois, a cama era larga e as almofadas eram suficientes para remanso no setor. O granjeio estava garantido sem sobressaltos para além dos próprios de quem tem bens ao luar porque o clima se não deixa controlar. Entregavam-se as uvas como agora sem preço, mas a paga era certa ainda que eventualmente atardada.

No Douro as Cooperativas chegaram a escoar algo com muito perto de metade dos vinhos produzidos. Dirigidas por órgãos eleitos, mas logo esquecidos, navegaram à vista porque os horizontes não eram muito largos e porque os associados pouco ou nada ligavam à navegação de todos os dias. As Adegas, eram como agora sentidas como algo que existe nos dias imediatamente antes das vindimas e nas semanas de espera pelo pagamento devido, como sempre aquém do tido como merecido e justo.

Mas como em tudo na vida, as coisas mudam. Por vezes muito menos do que aquilo que parece, mas modificam-se e influenciam as atividades e até as verdades assumidas como as mais convenientes. Os caminhos modificam-se e as realidades concretizam-se através de escolhas como é próprio quando se age ou se reage.

A partir do meado dos anos oitenta do século XX centenas de médios e mesmo alguns pequenos viticultores, complementaram-se como vitivinicultores. Criaram marcas, engarrafaram e engarrafam os seus vinhos e colocaram-se como parceiros a ter em conta no mercado que é global. Estabeleceram-se. Se se governam ou não, não sei, pois cada um sabe da sua vida e Deus da de todos.

Muitos trocarão líquido por liquidez, mas as coisas são como são. O certo é que a dado momento, ser associado de uma Cooperativa deixou de dar estatuto. Perseguindo e prosseguindo sonhos, boa parte do vinho produzido no Douro foi sendo e é metido em garrafas que se pretende e urge valorizar, assim como quem manda um filho ser doutor em Coimbra, passe a eventual má comparação, mas o amor é quase de igualha.

Vai daí, no entanto que nem tudo o que reluz é ouro. Pelo que me é dado a perceber, quase findas que estão as vindimas deste ano da graça de dois mil e vinte a três, nem tudo corre bem apesar do bom ano de colheita. As uvas que não as de para o vinho do Porto, ou são recusadas por quem habitualmente as recebia, ou tudo indica virão a ser pagas ao preço da uva mijona. O dinheiro falado nem para a água de levar as pipas irá dar.

Lembrando tempos de antigamente e de fome, ouve-se que há lavradores com o chapéu na mão a pedir quase como esmola que lhe fiquem com as uvas que tanta canseira deram a cultivar à força de muito trabalho e pouco descanso.

Tenho para mim que pouco sei, que as Adegas Cooperativas devem ser olhadas como possível e aconselhável porta de saída. Não a única, claro, mas uma das mais importantes. Com tempo que é sempre mestre. Obviamente que muito tem de ser alterado, quiçá a própria forma de organização e de atuação, sem os erros nefastos que não escassearam, e com o conhecimento de quem anda nas vinhas e nas adegas há muito tempo.

No mundo global em que o mercar e o comprar exige eficiência, rapidez e escala, onde os associados de uma Adega em quantitativo equivalem a um produtor médio de alguns países concorrentes, urge que se pense, se discuta sem sombras, sem pejo, com retidão e com inteligência para que continue a valer a pena manter os nosso jardins suspensos.



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