Manuel Igreja

Manuel Igreja

Ardeu, Arde e Arderá

Ainda sou do tempo em que quando o fogo virado incêndio começava a despontar nos matagais, logo se ouvia o sino tocar a rebate chamando e reclamando urgentes presenças de combatentes.

Aos primeiros repiques dos badalos aflitos, homens, mulheres, rapazes e raparigas, acorriam num ápice para combater o avanço das labaredas sôfregas que comiam tudo quem nem rebanho de ovelhas em pasto tenro.

Ao tempo havia gente, ainda havia vontade comum e ainda havia forte e verdadeiro sentimento de comunidade. O que era de um era de todos e o que era de todos era de cada um nas horas de aflição.

Com enxadas, ramos de giesta e a água que estive à mão e a jeito, cumpria-se a finalidade de se minorar a área onde tições pudessem ficar a ensombrar a paisagem perante olhares de amargura e almas caiadas de negro.

Nas vilas ao som estridente da sirene clamava-se pelos garbosos bombeiros que após uma desabrida correria se equipavam e se deslocavam para o local onde o inimigo queria campear. Com pedaços de mangueira, machados e todo o arrojo, o danado era extinto sem que pudesse galgar por um ror de hectares numa caminhada de horror.

Os fogos com cariz de incêndios, sempre existiram e sempre aterrorizaram, apesar de também ajudarem no renovar da própria natureza campestre sempre chão fertilizante e fertilizado. Nunca se desejaram, sempre se evitaram e sempre se combateram para se continuar o granjeio dos terrenos ardidos e não ardidos.

Havia pessoas em todo o lado. Havia povoamento num ordenamento ancestral e sem grandes estudos de especialistas e consultores que muito sabem pela rama, mas pouco ou nada pela raiz. Foi no tempo antes que o suposto desenvolvimento enxotasse as gentes das terras esvaziando o território sem apelo nem agravo por causa das prementes necessidades e das nenhumas reflexões.

Nada tardou que o bravio grassasse sem ordem, sem quem nele se tivesse mão e sem que houvesse quem o quisesse evitar. O chão virou pólvora pronta a rebentar. Tornou-se num verdadeiro palheiro velho repleto de palha seca e disponível para arder em proveito de alguns.

Os incêndios grandes e grandiosos no seu belo horrível, viraram um negócio muito proveitoso e muito apetitoso porque o seu combater virou coisa de muito valer nas florestas desordenadas e num labirinto de interesses que se cruzam.

Hoje em dia os sinos já não tocam a rebate porque poucos os ouvem, e porque o apagar dos fogos virou actividade de profissionais que ao que parece pouco entendem da tenda e pouco se coordenam. Apesar das juras de que tudo vai mudar, passada a emoção, tudo fica na mesma.

A floresta continua por cadastrar, por ordenar, e sem cultivo inteligente e conveniente. O seu cuidar não é de retorno imediato, por isso não é apetecível.
Não interessa por isso se adia até um dia. Sempre ardeu, arde e arderá, mas agora mesmo que as mesmas vezes, com um mar de terra virado inferno cada vez que o fumo negro se eleva no ar.


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