Manuel Igreja

Manuel Igreja

Alto Douro Vinhateiro: Servidão, paradoxo e esplendor.

Sem falsas modéstias, orgulho que baste e com toda a justiça, podemos dizer que o Douro, terra de rio de vinho e de gente, é uma das mais magníficas obras erguidas pelo ser humano. Foi ele, ontem e é ele hoje em dia que interagindo com a natureza, moldando o que era antes, a embelezou e acrescentou fazendo jardins suspensos regados com suor a escorrer para cima doo xisto. Onde havia silvados passou a haver videiras floridas que escorrem em néctares.

Acontece que as voltas do mundo no nosso viver, a dado momento levaram a que os vinhos aqui nascidos se tornassem procurados por quem os sabia apreciar porque os passou a conhecer. Uma atividade insípida e de remediar, num repente virou setor de enorme potencial económico, vai isto quase em trezentos anos. E então o Homem pôs-se a fabricar terra. Desmontou, bateu, e tornou a bater. Usou o malho e o alivião, empilhou, fez milhares de quilómetros de muros, como escreveu José Saramago. Depois disso no antes e no agora, tratando as vides melhor que as vidas, meteu e mete o sol em garrafas para que elas se vão mundo afora.

Foi necessário, rasgar os montes, construir os muros e patamares, abrir caminhos, fazer túneis e trazer o comboio: domesticar o rio, abrir passagem aos rabelos e construir barragens-cavar, escavar, fazer terra, saibrar, plantar, enxertar e tratar. E ao sétimo dia, não descansaram, foram vindimar. Como escreveu António Barreto. Por isso, mas não só, o Douro-Rio, Gente e Vinho, é lugar de sacrifício e de servidão.

Durante décadas a troco de migalhas e alimentados a broa, milhares de pessoas vindas das redondezas e da Galiza, vinte mil ao ano dali, esmifraram e torraram forças. Servos, plebeus, trabalharam de sol-a-sol que nem danados para senhores que vindos de fora de tornaram de cá, e para senhores que sendo de cá, eram de outra condição. T

odos juntos, deram forma a um modo de vida e a uma maneira fazer, que permitiram que no Douro brotasse e se desenvolvesse uma das maiores riquezas nacionais, feita embaixadora e símbolo de Portugal no mundo. O vinho do Porto, tesouro nacional, tantas vezes aval para empréstimos nos meios financeiros internacionais. O vinho cujo passar em pipas permitiu o construir de uma cidade capaz de ombrear com as melhores cidades europeias. O Porto.

No entanto, qual rio que corre pouco mais deixando que resíduos no leito, o líquido feito riqueza em vinho,  paradoxalmente em séculos ia-se daqui deixando um quadro de miséria e forme na terra que o viu nascer.

Multiplicava-se em valor fora do berço, porque os que lhe cobriam e cobrem a manta não sabiam e ainda não sabem bem, como não ficar com os pés de fora. Mas o mundo reconhece-nos e sabe valorizar-nos. Admira-se e consola o paladar com o fruto do nosso trabalho, regala os olhos e alimenta a alma com o esplendor da nossa paisagem a cada curva do rio e a cada mexer de olhos montes acima e de bardos ao fundo para lá e para cá.

Como escreveu Jaime Cortesão, os socalcos do Douro vinhateiro não são uma curiosidade turística, mas uma técnica ancestral de cultivo da vinha, representando a mais bela e dolorosa homenagem ao trabalho do povo português. O Alto Douro Vinhateiro é Património da Humanidade em homenagem ao passado e para memória futura. Que se ergam pois então os cálices em saudação neste presente aos que nos antecederam, aos que estamos e aos que hão-de vir. Nós merecemos.


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