A poucos dias das Eleições Autárquicas, permito-me partilhar um diálogo tido com alunos de 11º ano, com quem trabalho pelo terceiro ano consecutivo. Sou a Diretora de Turma, pelo que o acompanhamento que faço extrapola, muitas vezes, os conteúdos da disciplina que leciono.
Numa conversa, a propósito das eleições para a Associação de Estudantes da escola, diziam-me que vence as eleições a lista que organiza melhores festas e que tem os blusões mais bonitos. E, projetando-se já numa potencial candidatura no próximo ano, perguntam a minha opinião sobre o processo.
Em plena consciência, tive de colocar três questões “difíceis”:
1ª – Estão a eleger uma Associação de Estudantes ou uma Comissão de Festas?
2ª – As festas revelam a competência e o perfil dos candidatos?
3ª – Os blusões da lista servem, exatamente, para quê?
Seguiram-se o silêncio total e os olhares confusos. Sorri e parti para o esclarecimento da minha perspetiva.
Disse-lhes que estão a escolher os seus representantes e que têm o direito de serem representados pelos melhores. Os mais capazes. Os mais dinâmicos. Os mais proativos e criativos. Os mais inteligentes. Os melhores comunicadores. Os mais corretos. Os que têm melhores propostas e que já deram provas de serem competentes.
Acrescentei que nada disto se consegue aferir em festas com influencers e DJs mais ou menos conhecidos, dado que quando os problemas surgem, precisamos de intervenção e de defesa dos interesses dos alunos, queremos estar representados pelos melhores, não pelos festeiros. Afinal, a vida não é uma festa. O Carnaval dura 3 dias e as festas de verão uns 7 ou 8.
Em resposta à terceira questão que lhes coloquei, frisei que os blusões das listas têm um só propósito: criar um sentido de pertença a algo. Os alunos mais novos adoram ser portadores destes blusões, com os seus nomes gravados e o cargo que virão a ter. Estes cargos, grande parte deles inventados para consolidar este sentido de pertença, podem ser: Secretário do Secretário da Direção; Responsável da Secção de Jogos Digitais; Coordenador dos Coordenados de 3º ciclo; entre muitos outros. A imaginação é um terreno fértil. Claro que, quando pergunto aos meus alunos acerca das propostas da lista que integram e apoiam, eles olham para mim como se eu estivesse a falar mandarim. Isso não é minimamente relevante.
Para concluir a minha visão das coisas, lancei-lhes um desafio: querem formar uma lista no próximo ano? Escolham os melhores alunos (em todas as dimensões que este conceito comporta); dialoguem com os delegados e subdelegados de turma, para fazer um levantamento de dificuldades, preocupações e desejos dos alunos; reflitam e busquem soluções; estabeleçam parcerias e criem sinergias; tenham uma postura construtiva e integradora; deem vida ao vosso projeto e, no final, assegurem-se de que estão bem rodeados de gente capaz e motivada. Preparem-se para mostrar o que valem. Façam-no com dignidade e cortesia.
A caminho de casa refletia sobre esta conversa e estabeleci um paralelismo com a realidade fora da bolha escolar: escolhemos os melhores? Somos exigentes? Em que diferem os blusões dos meus alunos de 7º ano, das bandeiras e bandeirinhas, lenços, canetas e pulseirinhas, entre outros artilugios? Em nada. Absoluta e rigorosamente nada.
Vemos bandeiras a serem carregadas por pessoas que nunca leram uma linha sobre o que é a Social Democracia, o Socialismo, ou qualquer outra ideologia política. São intelectualmente limitadas e a sua incompetência é pública. Porém, integram listas e sentem-se validadas porque têm um cartão de militante. A sua condição não lhes permite ter uma mundividência que vá além das cores associadas ao seu clube de futebol e ao partido no qual fervorosamente militam – ou seja, agitam bandeiras.
Mas a militância é, na sua essência, algo que vai muito além de ser portador oficial de bandeiras. A militância é intervenção. A militância é pensamento crítico. A militância é trabalho. É altruísmo. É dedicação ao Bem Comum. Nenhuma destas vertentes é possível sem inteligência, compromisso, resiliência e ética. Nada disto é possível sem os melhores. O que aportam e que garantias dão pessoas como estas? A resposta afigura-se como óbvia.
A verdadeira democracia vive da participação informada e crítica dos cidadãos. Sem educação, esse ideal transforma-se numa mera formalidade: vota-se, mas não se entende plenamente o que está em causa. Vive-se numa ilusão de estado democrático. Só com uma educação que promova o pensamento crítico, o debate informado e a responsabilidade coletiva poderemos formar eleitores que escolham não os mais simpáticos ou ruidosos, mas os mais capazes e éticos.