Magda Borges

Magda Borges

O Povo não é uma peça de Xadrez

A dignidade em política afere-se pela fidelidade ao voto popular e pelo respeito ao serviço público.

A política parece ter-se distanciado, nos últimos anos, do seu objetivo fundamental: servir. O exercício do poder tornou-se, com frequência, numa disputa de estratégias, de equilíbrios instáveis e de cálculos políticos. O termo “serviço público” — antes nobre e primordial — foi substituído por frases como “gestão de interesses”, “parcerias táticas” e “negociação política”. E com essa alteração no léxico, perdeu-se, igualmente, um certo sentido de respeito.

A dignidade na política não é um acessório de cariz ético; é uma responsabilidade. Encontra-se na postura, na consistência e na clareza. Consiste em reconhecer que representar o povo é um gesto de confiança, não uma oportunidade de poder. O verdadeiro político é aquele que não vê o mandato que lhe foi confiado como um cheque em branco. É o que compreende que a lealdade ao voto deve prevalecer sobre a disciplina partidária, e que a fidelidade ao eleitor é mais relevante do que a lealdade cega e inquestionável à estrutura do partido.

Entretanto, o aspeto que, atualmente, mais debilita as democracias é a falta de respeito pela vontade manifestada pelos eleitores, é a dualidade discursiva face ao antes e depois do ato eleitoral. Quando a aritmética legislativa e os jogos de bastidores prevalecem sobre a escolha do povo, o sistema político afasta-se dos cidadãos e compromete de forma indelével a sua própria legitimidade. As "ardilosas estratégias" partidárias podem ser legais, mas estão longe de ser éticas. E é exatamente essa disparidade entre legalidade e legitimidade que arruína a confiança dos cidadãos.

Respeitar o desejo dos eleitores não se limita a acolher o desfecho das eleições; implica converter esse desfecho numa atuação política consistente e íntegra. Quando um partido se compromete a fazer algo e age de forma diferente, trai não só seus eleitores, mas também o próprio pacto democrático que é basilar no funcionamento social. É essa ausência de coerência que sustenta o cinismo e o distanciamento dos cidadãos, levando muitos à abstenção que todos discutimos, mas sobre a qual poucos refletimos de forma séria, coerente e consequente.

A política, para ser respeitável, precisa retomar a sua essência e ser um serviço à sociedade — não uma arena de egos nem zona experimental de pobres táticas. Escutar os sinais do eleitorado é considerar o nosso território a longo prazo, em vez de fazer prevalecer o foco num ganho imediato de um qualquer partido. É ter a ousadia de afirmar “não” quando o interesse coletivo o requer, e de priorizar a ética sobre a conveniência.

A democracia não é um jogo de xadrez, no qual se deslocam peças mediante as situações. Trata-se de um acordo de confiança entre representantes e cidadãos, fundamentado em princípios de honestidade, consideração e verdade.

Talvez seja o momento de cobrar da política o que ela frequentemente promete e muitas vezes não realiza: dignidade. Sem dignidade o poder deixa de ser um serviço e transforma-se apenas num exercício de vaidade e sobrevivência.

Respeitemos, assim, com dignidade, os cidadãos.


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